Conciliar a maternidade com o trabalho, a casa e as finanças é uma realidade diária para muitas mães solo. Sem uma rede de apoio, a sobrecarga física e emocional tende a aumentar, e atividades como descansar e cuidar de si acabam ficando em segundo plano.

A pediatra, palestrante, escritora e apresentadora do programa Mãe Sem Roteiro, Dra. Marli Rio, alerta que essa sobrecarga nem sempre é percebida por quem está por perto. “Ter escolhido a maternidade não significa ter escolhido a exaustão. E precisar de ajuda não diminui a capacidade de cuidar”, afirma.

Por que a rotina pode ser tão pesada

Os caminhos que levam à maternidade solo são variados: há mulheres que planejam ter filhos sem parceiro, enquanto outras enfrentam separações, viuvez ou abandono. Independentemente da situação, a falta de apoio torna o dia a dia mais difícil.

A pediatra também questiona a expressão “mãe e pai”, usada com frequência para elogiar essas mulheres. Segundo ela, o termo pode reforçar a ideia de que a mãe deve assumir todas as responsabilidades. “Ela não precisa ser duas pessoas para ser uma boa mãe. Precisa de apoio, de descanso e, quando o pai pode participar com segurança, é fundamental que assuma suas responsabilidades. Cuidar do próprio filho não é ajudar a mãe: é exercer a paternidade”, explica.

Sete atitudes que fazem diferença

Para a especialista, reconhecer o esforço é importante, mas o apoio precisa virar ação. Pequenas iniciativas podem aliviar a rotina e mostrar que a mulher não precisa dar conta de tudo sozinha.

1. Ofereça ajuda específica: em vez de perguntar de forma genérica se ela precisa de algo, proponha uma tarefa concreta, como buscar a criança na escola, acompanhá-la a uma atividade ou ajudar com um deslocamento.

2. Respeite o cansaço sem julgamentos: evite presumir que ela consegue lidar com qualquer situação. Ouça as dificuldades sem minimizá-las ou exigir que ela seja forte o tempo todo.

3. Crie momentos de descanso: quando houver confiança e condições adequadas, oferecer-se para ficar com a criança por algumas horas permite que a mãe descanse, cuide da saúde ou tenha um tempo para si.

4. Evite elogios que naturalizem a sobrecarga: frases como “você é uma guerreira” e “você consegue tudo sozinha”, mesmo bem-intencionadas, podem dificultar a expressão do cansaço.

5. Esteja disponível para ouvir: perguntar “como você está de verdade?” pode abrir espaço para conversas importantes, sempre respeitando o que a mulher deseja compartilhar.

6. Valorize a rede de apoio: familiares, amigos, pessoas de confiança e serviços comunitários podem ajudar a dividir responsabilidades. A especialista ressalta, porém, que essa rede não deve ser tratada como obrigação exclusiva da mãe: escolas, serviços de saúde, empresas e políticas públicas também precisam considerar as necessidades dessas famílias.

7. Respeite a configuração familiar: uma família formada por mãe e filhos não é incompleta. Crianças podem criar vínculos significativos com avós, tios, amigos e outras pessoas de confiança, desde que encontrem cuidado, segurança e relações saudáveis.

Cuidar da mãe também é cuidar da criança

Na prática pediátrica, segundo a médica, avaliar a saúde da criança envolve considerar as condições de quem cuida dela. Perguntas como “como você está?”, “quem pode ajudar quando você precisa?” e “o que tem sido mais difícil?” podem favorecer uma conversa acolhedora durante as consultas, desde que as respostas sejam recebidas sem julgamentos.

A Dra. Marli Rio destaca que sentimentos aparentemente contraditórios podem coexistir: uma mulher pode amar profundamente o filho e desejar horas de descanso, ou sentir orgulho da família que construiu e lamentar não ter alguém para dividir as responsabilidades. Nenhum desses sentimentos diminui o amor materno — pelo contrário, reconhecer as necessidades da mulher ajuda a compreender que ela tem uma identidade que vai além da maternidade, com projetos, relações e desejos próprios.

Apoio precisa ir além das palavras

Para a pediatra, a sobrecarga de muitas mães solo permanece invisível porque parte das pessoas ao redor se acostuma a vê-las resolvendo tudo. Quando a força é constantemente exaltada, o cansaço deixa de ser percebido.

A mudança, segundo ela, começa com uma pergunta simples: em vez de apenas dizer que uma mãe é forte, vale perguntar o que pode ser feito para dividir suas responsabilidades. “Precisamos permitir que essa mulher seja mais do que a pessoa que resolve tudo, que tenha espaço para seus projetos, seu descanso, suas relações e sua própria identidade”, defende.

Oferecer ajuda concreta, respeitar os limites e construir uma rede de apoio são atitudes que contribuem para que essas mulheres não enfrentem os desafios sozinhas.

Por Beatriz Monteiro