Lola-Fleur Whitaker, 22 anos, estudante de pós-graduação na faculdade de Ciências Políticas da Sorbonne — reduto universitário de esquerda na França — protagonizou uma cena inusitada em um programa de debates da televisão francesa. Loira e com nome que remete à alta sociedade, ela ironizou os lamentos dos comerciantes saqueados durante a onda de protestos violentos, dizendo “coitadinhos”.
Quem a contestou foi Jhemima Sheilha, empresária negra que chegou da Congo à França aos nove anos, enfrentou dificuldades e construiu uma rede de padarias com 130 funcionários. “É a minha vida, Lola”, respondeu. O embate expôs as contradições da França atual: a chamada “esquerda caviar”, de classe média, apoia maciçamente os protestos, e muitos de seus integrantes justificam a violência.
No debate, Lola-Fleur chegou a afirmar que “um terço dos estudantes de ensino médio não faz as três refeições diárias”, citando um dado que se mostrou totalmente inventado. Após a participação, vestindo o figurino do momento — shortinho e bota de cano alto —, a jovem foi acusada de hipocrisia.
Os motivos são óbvios: ela cursou a Universidade de Manchester, facilitada pelo fato de também ter nacionalidade britânica (“Fiz um empréstimo. Estou endividada até o pescoço”, alegou), e mantinha — ou mantém — um Instagram repleto de fotos de férias em destinos nada populares, como ilhas gregas e Malásia. Ela é filiada ao partido França Insubmissa.
Apoio popular em queda
Quando os estudantes do ensino médio começaram a sair às ruas e as manifestações se estenderam à pauta do custo de vida, o apoio da população chegou a 68%. Difícil é ser contra melhores escolas e preços mais baixos. Agora, porém, a violência dita “revolucionária” parece um perigo maior do que o preço da baguete ou do aluguel.
Desgastado, o presidente Emmanuel Macron e seu governo, que falhou em dimensionar o policiamento das manifestações de sábado passado, têm razão em um ponto: houve manipulação da extrema esquerda, representada pelo França Insubmissa, e também da chamada ultraesquerda — os Antifas, que, nas palavras do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, querem ver o circo pegar fogo e são os primeiros a ateá-lo.
Os aproveitadores
Na esteira dos extremistas profissionais, surgem os oportunistas. O canal France 24 fez uma reportagem sobre quem são eles, citando apenas os primeiros nomes dos acusados em audiências da justiça.
“Nunca joguei pedra nem gritei Acab”, disse à juíza o estudante Victor, de 21 anos — a sigla em inglês, pichação mais comum nos protestos, significa “todos os policiais são bastardos”. “Não sei por que ele fez isso, estou consternado”, declarou o pai, enquanto uma lágrima corria do olho do réu.
Lamine e Sofiane afirmaram ter se encontrado, de surpresa, dentro da Louis Vuitton saqueada na loja de departamentos Printemps. Lamine disse que fora comprar roupas para os filhos, ficou trancado e foi fumar no banheiro, aproveitando para beber das garrafas de uísque e vodka que levava. “O senhor leva garrafas de bebida para comprar roupas para os filhos?”, questionou a juíza. “Deixaram entrar com elas”, respondeu o acusado, que tem 22 registros na ficha e trabalha temporariamente na construção civil. Seu colega, em silêncio, usava tênis e casaco de luxo ainda com as tags de alarme.
“Encontrei caídos no chão. Não sabia que era roubo”, justificou-se Moustafa, de 18 anos, detido com sete pares de óculos da Nike.
Os cidadãos comuns, mesmo apoiando o princípio original das manifestações, estão revoltados: consideram o governo fraco, o policiamento falho e a justiça complacente. Ao contrário de Lola-Fleur Whitaker, temem o que pode acontecer no próximo sábado, quando nova rodada de protestos está marcada — e já proibida em algumas cidades.
Enquanto isso, a cotação de Marine Le Pen para o primeiro turno já subiu para 38%. No segundo turno, dependendo do adversário, chega a entre 56% e 68%.
