Estratégia de contraste

Apoiadores do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) em São Paulo articulam uma ofensiva digital para explorar a diferença entre a manifestação marcada para o próximo domingo (18) na avenida Paulista e o ato pela reeleição do presidente Lula (PT), ocorrido no domingo passado (11). O objetivo é destacar que o grupo do senador seria ordeiro, em oposição aos manifestantes de esquerda.

A estratégia prevê filmar a avenida e as estações de metrô limpas após o evento. Auxiliares do prefeito Ricardo Nunes (MDB), um dos organizadores da campanha de Flávio na capital paulista, pretendem contratar equipes de limpeza para atuar na Paulista à medida que os manifestantes deixarem o local.

Pichações e peça oficial

No ato lulista, grupos de jovens se penduraram nos vidros das estações Consolação e Trianon-Masp, fechadas por questões de segurança diante da multidão, segundo a empresa responsável pela operação do metrô. As unidades foram pichadas e algumas tiveram vidros trincados.

A direita bolsonarista já vinha disseminando imagens da depredação para tentar gerar medo ou rejeição entre eleitores indecisos. Na segunda-feira (12), o próprio candidato do PL compartilhou um vídeo que contrasta cenas de manifestantes petistas escalando a estrutura de uma estação de metrô com registros de atos bolsonaristas tomados pela bandeira do Brasil, com a tarja “Qual o Brasil que você quer?”. As imagens também foram exibidas em inserções do candidato na TV.

Conteúdo falso e mobilização

A campanha do senador explora, além de imagens reais, conteúdos falsos. Um canal oficial de Flávio no WhatsApp associou incorretamente um vídeo de uma jovem aparentemente cheirando cocaína ao ato petista. A imagem, porém, já circulava em páginas argentinas desde junho. Procurada, a campanha do candidato não se manifestou. O material também foi compartilhado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), um dos principais cabos eleitorais do candidato.

Após a divulgação, o deputado federal Gustavo Gayer (PL) publicou áudio no canal “Tropa do Flávio” pedindo que apoiadores espalhassem nas redes imagens da “sujeira” no ato pró-Lula. Para ele, o conteúdo poderia ter efeito negativo na campanha do petista, como teria ocorrido com o movimento “Ele Não”, em 2018, contra a candidatura de Jair Bolsonaro (PL).

O canal de Flávio, criado como contraofensiva à estratégia digital liderada pelo deputado André Janones (Rede) a favor de Lula, também divulgou conteúdo produzido por inteligência artificial. Na peça, uma mulher negra limpa pichações feitas por manifestantes petistas em uma estação de metrô na Paulista, com a legenda “No final a conta sobra pro trabalhador” — sem esclarecer que se tratava de imagem sintética.

Resposta do campo petista

Nas redes sociais, apoiadores de Lula rebateram a narrativa bolsonarista disseminando imagens do vandalismo nos prédios dos três Poderes em Brasília em 8 de janeiro de 2023, episódio da trama golpista pela qual Bolsonaro foi condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

A deputada federal eleita Natalia Boulos (PSOL) compartilhou vídeo que sobrepõe cenas do 8 de Janeiro a uma gravação em que Tarcísio critica a depredação no ato lulista. “Quem precisa quebrar para ter razão já perdeu o argumento”, afirma o governador na gravação, enquanto imagens mostram apoiadores de Bolsonaro quebrando vidraças em Brasília.

Este domingo (18) receberá ainda mais um “bloquinho” do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que organiza manifestações pró-Flávio em uma série de cidades nas semanas que antecedem o segundo turno.