Eleições 2026: igrejas evangélicas marcam posições no segundo turno
Nos últimos dias, lideranças ligadas ao pastor José Wellington Bezerra da Costa, um dos nomes mais antigos e influentes do pentecostalismo brasileiro, passaram a demonstrar de forma aberta apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial.
No sábado (17), Paulo Freire Costa, filho do pastor e deputado federal reeleito pelo PL em São Paulo, divulgou um vídeo para “tornar público o nosso posicionamento”. Falando em nome da Convenção Fraternal das Assembleias de Deus de São Paulo, afirmou que apoiaria o presidenciável porque “ele defende os nossos princípios”.
No dia seguinte, a vereadora Rute Costa (PL-SP), também filha de José Wellington, publicou registro do ato bolsonarista na avenida Paulista. Já José Wellington Júnior, primogênito do clã, pediu que “todos os irmãos que estarão na direção de cultos nesta noite” reservassem um momento “para orarmos pelo Brasil”.
Tradição de posicionamento contra a esquerda
O alinhamento da família contra Lula (PT) não é novidade. Em 1997, durante congresso liderado por José Wellington, pastores gritaram “presidente, Jesus te ama” em apoio à reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O pastor presidiu por três décadas a CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), o maior grupo assembleiano do país.
Em 2010, ele gravou depoimento para a campanha de José Serra (PSDB), rival de Dilma Rousseff (PT). Oito anos depois, declarou no púlpito que “é não votar na esquerda”. Em 2022, José Wellington Júnior afirmou lamentar pastores que tentavam aproximar o pai do PT: “Na nossa igreja não cabe, irmão”. O filho assumiu a presidência da CGADB em 2017.
Em abril, José Wellington recebeu Flávio na igreja e orou para que “o Senhor o leve para ser presidente da nossa nação”. Às vésperas do primeiro turno, porém, adotou tom conciliador em vídeo, sem indicar candidato, defendendo que é preciso “reaprender a respeitar as lideranças, as instituições e uns aos outros”.
Madureira também se aproxima do bolsonarismo
O segundo turno consolidou a inclinação majoritária das lideranças evangélicas de alcance nacional em favor de Flávio. O bispo Samuel Ferreira, presidente da Conamad (Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério Madureira), se aproximou do bolsonarismo após um período de reaproximação com Lula.
Seis dias depois do primeiro turno, Samuel recebeu o filho de Jair Bolsonaro (PL) na festa dos cem anos do ministério de Madureira e pregou que “irmão vota em irmão”. Um ano antes, o bispo havia posado e orado com Lula no Planalto, enquanto Cezinha de Madureira (PL-SP) fazia gestos ao governo — depois de apoiar Bolsonaro em seu mandato, inclusive participando de motociata.
Em 2026, Samuel contornou a legislação que proíbe pedido de voto em templos: disse que não faria o pedido, mas que, se pudesse, defenderia Flávio por ser “honesto, sério e crente”, e “porque foi ele o indicado pelo presidente”.
Outros blocos regionais, como o paraibano, também se manifestaram. O pastor José Carlos de Lima recomendou aos fiéis rejeitar partidos que queiram “ridicularizar a nossa fé”, em referência implícita à esquerda.
Segundo o cientista político Vinicius do Vale, líderes da velha guarda, sem o alcance midiático de nomes como Silas Malafaia ou Cláudio Duarte — que somam 15 milhões de seguidores no Instagram —, mantêm influência relevante. É o caso do nonagenário José Wellington, cujo perfil mais analógico não o impede de ser “muito ouvido”, exercendo ascendência longe dos holofotes seculares.
