No início do dia 29 de outubro de 2024, Daniel Vorcaro, então um dos homens mais ricos do país, deu uma ordem inusitada a um assistente: encontrar, em qualquer lugar do mundo, uma garrafa rara de uísque Macallan 1945. O destino do presente não era segredo. “Pode ver se Aurel consegue uma garrafa Macallan 1945 naquela loja Londres”, escreveu o banqueiro, antes de completar: “Preciso dar pro Lula.”
Os diálogos constam do celular de Vorcaro apreendido pela Polícia Federal e revelam um detalhe até agora desconhecido: o presente ao presidente Lula custou cerca de 500 mil reais. A história do uísque já era conhecida; o valor, não.
Caça ao raro Macallan
A Macallan é uma marca escocesa famosa por garrafas de alto luxo. Em 1981, criou uma linha especial, com blends de 1948 e 1961, para celebrar o casamento do príncipe Charles com Diana — as safras remetiam aos anos de nascimento dos dois. Um single malt dessa categoria passa décadas envelhecendo em barris de carvalho e combina raridade, memória e prestígio.
Diante da missão, o funcionário perguntou como a operação seria feita caso a garrafa fosse encontrada. Vorcaro respondeu que pagaria uma pessoa exclusivamente para viajar ao Brasil com a encomenda. Cinco horas depois, o assistente voltou com a foto de uma garrafa e o preço: “Dani, achamos esse por enquanto. Rótulo não está 100% qq acha? Está na casa dos €80k++. Estamos atrás de outros com rótulo mais inteiro. Te aviso em breve!”
Ao ver a imagem, avaliada na época em cerca de 500 mil reais, o banqueiro não hesitou: “Tá ótimo”. A compra foi fechada em seguida: “Virá de Dubai num voo amanhã! Chega aqui na quinta, ok?”. O ano da safra, 1945, é o mesmo de nascimento de Lula, que faz aniversário no dia 27.
Advogado apontava apoio do Planalto
Semanas antes da caça ao Macallan, em setembro de 2024, Vorcaro recebeu um alerta do advogado Walfrido Warde, que defendia os interesses do banqueiro junto ao presidente e a ministros no Planalto. “Estive longamente com o presidente Lula ontem. Você vai gostar… Muito importante para você. Muito”, escreveu Warde. “Você falou de mim?”, perguntou Vorcaro. “Só Deus. Claro”, respondeu o advogado.
Naquele período, Vorcaro tentava capitalizar o Banco Master, mergulhado em investigações e suspeitas de fraudes, e recebia do advogado sinais de que Lula estava ao lado do banco. Em 21 de novembro de 2024, Warde disparou: “Tudo acertado aqui. Preciso das informações. Urgente. Quando você pode encontrar o presidente? Tudo ajustado.”
Mantega, propina e fundos de pensão
Enquanto buscava um canal direto com Lula, Vorcaro contratou o ex-ministro Guido Mantega como consultor, por 1 milhão de reais por mês. Segundo reportagem de VEJA, o banqueiro também disse ter aceitado pagar propina ao ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e ao grupo político do então ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, para captar até 10 bilhões de reais nos cofres de fundos de pensão das estatais.
Parte dos recursos repassados aos petistas teria chegado a Paulo Okamotto, no Instituto Lula, a pretexto de financiar um filme sobre o presidente. Essas informações foram apresentadas pelos advogados de Vorcaro à PGR em proposta de delação, mas os procuradores rejeitaram incluir o capítulo no acordo, mesmo diante da promessa de que provas seriam apresentadas.
As mensagens no celular do banqueiro reforçam a narrativa das conexões entre o petismo e Vorcaro. Em 4 de dezembro de 2024, ele foi recebido por Lula em reunião fora da agenda oficial, articulada com o então chefe de gabinete da Presidência.