O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 revelou que a influência familiar na política brasileira vai muito além do clã Bolsonaro. Em vários estados, parentes de políticos conquistaram cadeiras em disputas majoritárias, reforçando o fenômeno das dinastias eleitorais.

Alagoas e Amapá: famílias no comando

Em Alagoas, João Henrique Caldas (PSDB), o JHC, foi eleito governador, enquanto a esposa, Marina JHC (PSDB), conquistou uma vaga no Senado. A primeira suplente de Marina é Maria Eudócia (PSDB), mãe de JHC, que já ocupa o cargo desde 2024, quando assumiu após a renúncia de Rodrigo Cunha (Podemos). O pai do governador, João Caldas, também foi deputado estadual e federal.

O ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP) se elegeu senador e colocou o filho, Alvinho Lira (PP), de apenas 20 anos, na Câmara Federal. Antes dele, o avô, Benedito, também havia sido deputado federal. No mesmo estado, porém, a família Calheiros amargou derrotas: Renan Calheiros perdeu a reeleição ao Senado e Renan Filho foi derrotado na disputa pelo governo.

No Amapá, Dr. Furlan (Podemos) venceu a corrida pelo governo e a esposa, Rayssa Furlan (Podemos), foi eleita senadora. O cunhado, Neto Furlan (Podemos), é o primeiro suplente. A família trava forte disputa com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União).

Norte e Nordeste: Barbalho e Braga

No Pará, Helder Barbalho (MDB) garantiu uma das cadeiras do Senado, com o pai, Jader Barbalho (MDB), como suplente. Ex-governador em dois períodos, como o filho, Jader encerra o mandato para dar lugar ao herdeiro. Outro filho, Jader Filho (MDB), foi eleito deputado federal. No Amazonas, o senador Eduardo Braga (MDB) se reelegeu com a esposa, Sandra (MDB), como suplente.

São Paulo: os Tatto e os Zarattini

No estado de São Paulo, dois clãs petistas elegeram representantes: os Tatto e os Zarattini. Os irmãos Jilmar e Nilto foram reeleitos deputados federais, e Ênio renovou a cadeira na Assembleia Legislativa.

A família Tatto domina a região da Capela do Socorro, na zona sul da capital, desde o governo Luiza Erundina (1989-1992). O poderio é tão marcante que a área foi apelidada de “Tattolândia” — seis dos dez irmãos atuam na política, um deles, Leonide, foi subprefeito.

Jilmar, eleito federal pela primeira vez há 20 anos, foi secretário nacional de comunicação do PT e vice-presidente nacional da legenda, além de ter comandado secretarias municipais nos governos Marta Suplicy e Fernando Haddad. Nilto trilhou caminho ligado a ONGs socioambientais, com atuação junto a indígenas e quilombolas. Ênio caminha para o sétimo mandato seguido na Alesp.

Já Carlos Zarattini foi reeleito para o sexto mandato consecutivo na Câmara. A sobrinha, Luna, vereadora da capital, estreará como deputada federal. A tradição familiar vem do avô de Luna, Ricardo Zarattini, ex-deputado federal e militante da resistência à ditadura, que iniciou a vida política nos anos 1950, quando presidia a União Estadual dos Estudantes e participava da campanha “O petróleo é nosso”.

Segundo cientistas políticos, fatores como a transferência de votos e a atuação conjunta na política explicam a força dessas dinastias nas urnas.