O desafio de quebra de sigilos lançado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Flávio Bolsonaro (PL) recorre a um artifício antigo do repertório político — já empregado por outros políticos em diversas situações —, mas que continua produzindo efeito. Em coluna publicada nesta quinta-feira (22), a jornalista Dora Kramer avalia que a provocação, embora gasta, segue funcionando como instrumento de desgaste do adversário, sobretudo quando acionada nos dias finais da disputa pelo segundo turno das eleições 2026.
Mecânica da provocação
A lógica da jogada é simples. Se o desafiado aceita a proposta, entra no jogo armado pelo desafiante. Se recusa ou simplesmente ignora o pedido, deixa no ar a suspeita de que teria sujeiras a esconder. Para quem provoca, a segunda reação é a mais desejada, pois preserva o controle do confronto, que passa a opor os honestos aos presumidamente desonestos.
O timing escolhido amplia o alcance da cartada. Mesmo que os dados sejam abertos, não restaria tempo hábil para um exame detalhado, capaz de apontar conclusões precisas sobre os procedimentos ocultos de um ou de outro lado. A desconfiança permanece, e o lance termina em conta de soma zero.
Arsenal de última hora
A provocação integra o conjunto de medidas adotadas de última hora pela campanha petista: atos de rua, ofensiva nas redes, abuso da máquina, promessas de difícil execução e boataria em circulação constante. Não é possível afirmar se o pacote será suficiente para promover uma virada, mas ficou claro que ao menos serviu para impedir a escalada da vantagem de Flávio Bolsonaro e para segurar o empate nas pesquisas.
A ofensiva ganhou corpo nas vésperas do encerramento da campanha, período que incluiu o debate presidencial entre os dois candidatos, realizado na Band no dia 19 de outubro.
Sem entrar no mérito ético dos recursos empregados, o instrumental mostrou-se eficaz em alguma medida. Na avaliação da colunista, se tais armas tivessem sido acionadas desde o começo da disputa, a situação de Lula poderia ser bem melhor do que a de correr o risco de encerrar a carreira com uma derrota para alguém cuja qualificação para o cargo não é reconhecida nem pelos próprios aliados.
Para a análise, desmontar a figura de Flávio Bolsonaro — exibir suas fragilidades e as impossibilidades de colocar a economia nos trilhos e reorganizar a institucionalidade — não seria tarefa difícil. O presidente, contudo, teria ignorado a necessidade de investir em boa governabilidade e em condutas corretas, de modo que a comparação com o antagonista não ficasse refém do mantra do ‘nós’, democratas de fé, contra ‘eles’, fascistas juramentados.
Autocrítica como sobrevivência
A conclusão é de que, em qualquer cenário — na vitória ou na derrota —, Lula e a esquerda terão de se render ao imperativo da autocrítica para sobreviver, seja como governo, seja como oposição.
