Na Grécia da Idade do Bronze, a mobilidade de pessoas não dependia apenas de mulheres que deixavam suas comunidades para se casar. Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 analisou restos humanos de 199 indivíduos e constatou que homens também se deslocavam, além de apontar que os jovens adultos concentravam os maiores indícios de migração.
Como os esqueletos revelaram a mobilidade
Os pesquisadores examinaram seis sítios arqueológicos no centro e no sul da Grécia, incluindo cemitérios ligados a diferentes períodos da Idade do Bronze. A meta era verificar se as transformações econômicas e culturais da época envolviam também a chegada de pessoas criadas em outras comunidades. Para isso, a equipe recorreu às assinaturas químicas preservadas nos restos mortais.
O estudo identificou 17 indivíduos com características isotópicas incompatíveis com as referências locais, cerca de 8,5% da amostra. Isso indica que parte da população cresceu em outras regiões. Ainda assim, as assinaturas não comprovam viagens internacionais, já que todos poderiam ter vindo de outros pontos da própria Grécia.
O que os dados mostraram
Homens e mulheres apresentaram evidências de deslocamento. Entre 84 indivíduos identificados como mulheres, 6,3% tinham assinaturas não locais. Já entre os 75 identificados como homens, o índice chegou a 10,3%. Embora o percentual masculino seja maior, os cientistas não encontraram provas suficientes de um padrão migratório dominado por um único sexo.
A idade também fez diferença. Entre os jovens adultos, aproximadamente 14% tinham origem não local, contra 9,4% dos adultos mais velhos. A equipe considera provável que muitos deslocamentos ocorressem individualmente, e não com famílias inteiras, embora os resultados não permitam precisar quando cada mudança aconteceu.
O papel do estrôncio na análise
O estrôncio existe naturalmente nas rochas e chega aos organismos pelo solo, pela água e pelos alimentos. Suas proporções isotópicas variam conforme a geologia de cada região. Durante a formação dos dentes, parte desse elemento fica incorporada ao esmalte, guardando informações sobre o ambiente da infância.
Os cientistas compararam a razão entre os isótopos estrôncio-87 e estrôncio-86 com referências ambientais dos locais de sepultamento. Foram examinadas 107 amostras de esmalte dentário e 92 de ossos petrosos, estruturas densas próximas ao ouvido interno. Por isso, nem todas as 199 pessoas foram analisadas por meio dos dentes.
Patrilocalidade em xeque
Publicado em 23 de setembro de 2026 na revista PLOS One, o estudo liderado por Anja B. Frank reuniu pesquisadores de instituições europeias. Em certas sociedades antigas, mulheres deixavam suas famílias para viver nas comunidades dos maridos, prática chamada patrilocalidade. Os resultados gregos, porém, não sustentam uma predominância feminina generalizada. Isso não significa que casamentos nunca motivassem mudanças, mas que outras circunstâncias sociais e econômicas também provavelmente impulsionaram a circulação de pessoas.
Limitações e próximos passos
A proporção de indivíduos não locais permaneceu relativamente estável ao longo dos períodos investigados, geralmente entre 5% e 10%, o que sugere circulação contínua mesmo durante transformações culturais importantes. Os resultados descrevem tendências observadas nos indivíduos estudados, não porcentagens absolutas de toda a população antiga.
Existem limitações: regiões distintas podem ter assinaturas isotópicas parecidas, o que dificulta identificar deslocamentos, e os vestígios não estabelecem a idade exata em que cada pessoa mudou de residência. Novos estudos combinando estrôncio, DNA antigo e dados funerários poderão esclarecer melhor essas trajetórias.
