O tsunami que atingiu o Pacífico após a erupção do vulcão Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, em janeiro de 2022, ganhou uma explicação mais completa. Cientistas reconstruíram o colapso da caldeira submarina do vulcão e concluíram que a velocidade, a profundidade e o formato do afundamento foram decisivos para a formação das ondas devastadoras.

Erupção histórica

Em 15 de janeiro de 2022, o Hunga protagonizou uma das erupções mais violentas já registradas por instrumentos modernos. A explosão lançou material vulcânico a mais de 55 quilômetros de altitude, gerou ondas atmosféricas que deram a volta no planeta e provocou um tsunami que alcançou diversas regiões do Pacífico.

A explosão, porém, não explica sozinha todos os impactos observados. Estudos recentes apontam que o afundamento repentino da estrutura vulcânica teve papel fundamental na geração das ondas próximas ao arquipélago. O colapso ocorreu durante a sequência eruptiva, quando o esvaziamento parcial do reservatório de magma comprometeu a sustentação das rochas acima.

O que as medições mostraram

Uma investigação publicada em setembro de 2026 na Nature Geoscience comparou mapas submarinos feitos antes e depois da erupção. Os pesquisadores identificaram mudanças profundas na caldeira, com aumento expressivo da profundidade e alterações na geometria das paredes.

Segundo o levantamento, cerca de 6,85 quilômetros cúbicos de material foram deslocados pelo colapso, e processos erosivos ampliaram as modificações no fundo do mar. Entre os principais resultados:

A caldeira passou de aproximadamente 150 para 850 metros de profundidade;

O diâmetro cresceu de cerca de 4,5 para 4,8 quilômetros;

O volume total de material deslocado atingiu 8,9 quilômetros cúbicos;

O piso estrutural afundou cerca de um quilômetro, com deslizamentos durante a atividade eruptiva.

Efeito pistão

A caldeira apresentou características compatíveis com um colapso semelhante ao movimento de um pistão: grandes porções do fundo vulcânico descem rapidamente, alterando a pressão e o deslocamento da água ao redor. Quanto mais brusca e concentrada a deformação, maior a perturbação transmitida ao oceano.

As medições também identificaram paredes íngremes, terraços concêntricos e setores que afundaram de forma desigual — geometria que influencia a distribuição do deslocamento da água. A energia transferida, no entanto, depende também da duração do colapso, variável que os mapas posteriores à erupção não conseguem determinar sozinhos.

Evidências do afundamento

O estudo reuniu levantamentos batimétricos feitos entre 2015 e 2022, somados a dados geofísicos do subsolo. Os pesquisadores encontraram depósitos de deslizamentos intercalados com material vulcânico, indício de que parte da estrutura desabou enquanto a erupção ainda ocorria.

A reconstrução sugere que cerca de oito quilômetros cúbicos de magma, em volume equivalente de rocha densa, foram expelidos antes ou durante o colapso — menos de 30% do reservatório estimado. Isso mostra que não é preciso esvaziar totalmente uma câmara magmática para provocar uma deformação estrutural gigantesca.

Mecanismos combinados

O desastre envolveu diferentes processos físicos: explosões submarinas deslocaram água diretamente, mudanças estruturais da caldeira e deslizamentos geraram perturbações adicionais, e ondas atmosféricas transferiram energia ao oceano, explicando a propagação do tsunami por grandes distâncias. Estudos independentes indicam que o maior tsunami próximo ao vulcão ocorreu cerca de uma hora após as explosões detectadas globalmente, associado a um episódio de subsidência.

Alertas mais precisos

Os resultados indicam que avaliar apenas a intensidade explosiva de um vulcão pode subestimar os riscos. A forma da caldeira, a profundidade do reservatório e a possibilidade de colapsos rápidos devem entrar nos modelos de ameaças costeiras. Levantamentos submarinos futuros poderão identificar estruturas vulneráveis antes de grandes erupções, embora prever quando uma caldeira desabará siga sendo um desafio científico.