Pedro Parente, ex-ministro da Casa Civil e do Planejamento no governo Fernando Henrique Cardoso e ex-presidente da Petrobras e da BRF, avalia que o resultado do primeiro turno mudou a equação do segundo. Para ele, a maioria de direita eleita para a Câmara e o Senado aumentou a distância entre os riscos que cada candidato representa.
“Agora tem um que realmente tem uma representação de risco para o país, dessa concentração de poder”, afirmou em entrevista à BBC News Brasil. Segundo ele, o quadro é “bem mais” relevante do que parecia antes do primeiro turno. Parente comparou o cenário ao dos Estados Unidos, onde Donald Trump governa com maioria republicana nas duas casas do Congresso.
Sem voto declarado
Mesmo assim, Parente não revela em quem vota. Ele descreve a decisão como “individual e solitária”, expressão que retoma o fecho de sua coluna “Convicção ou Responsabilidade?”, publicada no sábado no jornal O Globo. Ele já havia afirmado, no entanto, que não vota em Flávio Bolsonaro (PL).
A declaração foi feita em carta publicada no LinkedIn, em resposta a artigo de João Moreira Salles na revista piauí. O autor criticou parte da elite econômica por relativizar os riscos à democracia para se aproximar da candidatura de Flávio e citou nominalmente executivos presentes a um jantar com o senador em São Paulo, organizado pelo ex-presidente do Credit Suisse Brasil Marcelo Kayath. Parente estava entre eles.
Na carta, o ex-ministro disse ter ido ao encontro para ouvir diretamente quem pode vir a ser presidente — e ter saído de lá com uma opinião pior do que a que tinha ao chegar.
Jantar com Flávio
Na entrevista, Parente detalhou o que presenciou: mesmo perguntado, Flávio não demonstrou ter um projeto de país, segundo ele. As propostas econômicas apresentadas foram genéricas e vieram não do candidato, mas de dois assessores — a ex-presidente da Caixa, Daniella Marques, e o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. A possível moderação de Flávio, para Parente, é “um enigma”.
Desencanto e dilema
Na coluna, ele explica que escreveu o texto por viver o mesmo dilema de outros eleitores: o voto, para ele, não é apenas escolher um dos postulantes, mas depositar confiança e delegar a um eleito a tarefa de governar o país — não se trata somente de escolher o menos pior.
Apoiador de Lula em 2022, Parente afirma não ver melhoras no país nos últimos quatro anos e diz não ter simpatia por nenhum dos finalistas. Sobre Flávio, observa que ele nunca teve posição executiva e se elegeu ao Senado na esteira dos votos destinados ao pai. Do adversário, afirma que os governos foram “absolutamente desastrosos”, especialmente do ponto de vista fiscal, das alianças escolhidas e da relação com o Supremo Tribunal Federal.
Os quase 49 milhões de brasileiros — três em cada dez — que não votaram em nenhum dos finalistas representam, para ele, um retrato do desencanto com a política e com os candidatos, uma percepção de que, qualquer que seja a escolha, o país não estará bem.
Parente também observa maior engajamento da esquerda nas recentes manifestações, na Avenida Paulista e no Rio de Janeiro, e antecipa forte mobilização bolsonarista no domingo seguinte. Para ele, a maior parte dos recursos do fundo partidário foi destinada a reeleger quem já estava no Congresso, transformando o mecanismo em instrumento de perpetuação do poder. A maioria de direita, diz, “sacode” a organização política construída em torno do Centrão, do fisiologismo e das emendas parlamentares.
