Análise de Gabriel Casalecchi, doutor em ciência política pela UFMG, professor da UFSCar e pesquisador do INCT ReDem, e Victor Coelho, doutorando em ciência política pela UFSCar e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática.
O enigma do voto evangélico
Como explicar que os evangélicos — grupo sem comando centralizado, sem um “papa” e que rejeita explicitamente a política dentro dos templos — convergem de forma tão clara nas urnas? A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, do Iser (Instituto de Estudos da Religião) em parceria com a Quaest, oferece pistas: a alta frequência ao culto e a exposição a líderes religiosos nas redes sociais.
Se o modelo do “pastor manda, fiel vota” fosse verdadeiro, os números não fariam sentido. Entre os pentecostais, 81% são contrários a discutir política na igreja, 87% rejeitam campanha eleitoral no templo e apenas 23% afirmam que sua liderança recomendou voto em Bolsonaro no segundo turno de 2022.
O alinhamento político, no entanto, existe e é consistente. Pentecostais se identificam mais com o PL do que com o PT, e a rejeição ao partido chega a 39% entre os protestantes — batistas, metodistas e presbiterianos, entre outros. Segundo levantamentos recentes do Datafolha e da Quaest, o senador Flávio Bolsonaro aparece cerca de 30 pontos percentuais à frente de Lula nesse segmento, em cenário de segundo turno.
Conservadorismo explica direção, não intensidade
O conservadorismo moral ajuda a entender o rumo do voto, mas não sua força. Entre os evangélicos, 64% se declaram conservadores, contra 54% dos católicos. Os católicos, porém, também majoritariamente conservadores, deram maioria a Lula em 2022. Se o conservadorismo bastasse para prever a escolha, os dois grupos teriam votado de forma parecida — o que não ocorreu.
Outro achado contraintuitivo é a inexistência de liderança evangélica com alcance nacional relevante. Apenas 18% dos brasileiros seguem algum artista, influenciador ou líder religioso nas redes, e, entre os pentecostais que seguem alguém, 78% citam nomes fora de qualquer lista de destaque. Os dados revelam uma estrutura pulverizada, sem porta-voz único — o que torna ainda mais intrigante a coerência nacional do voto.
A pesquisa também relativiza o tipo de conservadorismo evangélico. Dos pentecostais, 75% preferem que o dinheiro público voltado à segurança priorize educação e combate à desigualdade, e não polícia e prisões. A maioria é contra facilitar a posse de armas. Trata-se de um conservadorismo concentrado em costumes e moral, não necessariamente estendido a outras pautas associadas automaticamente à direita.
Frequência ao culto é a pista central
A assiduidade aos cultos talvez seja o indício mais consistente. Quase metade dos evangélicos (46%) vai à igreja duas vezes por semana ou mais, contra 12% dos católicos. Esse contato semanal e denso, que nenhuma outra religião reproduz na mesma escala, cria as condições para que uma leitura política circule e se confirme entre os fiéis sem que ninguém precise pregá-la do púlpito.
Os números indicam que o voto evangélico se forma menos por comando e mais por convivência — o que os sociólogos chamam de socialização. Não há um pastor dando ordens ao campo nem uma liderança nacional capaz de sincronizar milhões de fiéis. Existe uma rede de igrejas frequentada com intensidade única, onde uma leitura política comum se consolida por repetição e proximidade, não por hierarquia. É esse processo horizontal, e não a imagem do rebanho obediente, que explica por que um grupo tão fragmentado por fora vota de forma tão coesa por dentro.
Se as preferências eleitorais dos evangélicos passam por forte socialização horizontal, concluem os autores, não existe marqueteiro capaz de mudar esse cenário às vésperas das eleições.
