O jornal francês Le Monde publicou nesta quarta-feira (30) um manifesto assinado por 30 intelectuais e artistas que acusa os Estados Unidos de interferir nas eleições brasileiras de 2026, com a cumplicidade do candidato Flávio Bolsonaro (PL).

O texto, veiculado na seção opinativa do diário, traz como título “No Brasil, os Estados Unidos procuram influenciar a eleição presidencial, com a cumplicidade de um dos candidatos, Flávio Bolsonaro”. Entre os signatários estão o músico Chico Buarque, o ex-jogador de futebol Raí e os economistas Thomas Piketty, Philippe Aghion e Joseph E. Stiglitz — os dois últimos laureados com o Nobel de economia. A lista inclui ainda intelectuais franceses e brasileiros, como Gabriel Feltran, Michel Löwy e Jean Tible.

Alerta sobre contestação eleitoral

O documento cita episódios em que Flávio Bolsonaro questionou a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro e classifica a postura como uma “preparação metódica para uma contestação eleitoral, independentemente de vitória ou derrota”.

Segundo os signatários, há ainda forte pressão vinda de Washington. Eles mencionam a retirada de vistos de autoridades brasileiras e as tarifas aplicadas pelo governo de Donald Trump ao país, em resposta ao processo contra Jair Bolsonaro (PL), condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe.

“Uma potência estrangeira procura abertamente influenciar o resultado de uma eleição soberana, com a participação ativa de um dos candidatos. Esse precedente, se não for fortemente denunciado, não ficará restrito ao Brasil”, afirma o texto.

Democracia em jogo

Para os autores, o pleito de 2026 não representa apenas a escolha de um presidente, mas a decisão sobre “se a maior democracia da América Latina continuará a ser uma democracia”. A carta lembra ainda a má condução da pandemia de Covid-19 durante o governo Bolsonaro e afirma que o ex-presidente atuou “contra os movimentos negros e indígenas, as mulheres e as pessoas LGBTQIA+”.

Os signatários avaliam que a candidatura de Flávio Bolsonaro representa a continuidade desse projeto. Eles apontam uma ameaça institucional e “um programa econômico que anuncia um retrocesso social igualmente preocupante”, com risco de aprofundamento das desigualdades.

Chamado à Europa

Na parte final, o manifesto convoca “os meios de comunicação, os responsáveis políticos, as instituições europeias e a sociedade civil francesa” a acompanhar o processo eleitoral brasileiro, rejeitar qualquer ingerência estrangeira e apoiar a sociedade civil e as instituições do país.