As anotações manuscritas do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, para o debate da TV Globo desta sexta-feira (23) mostram a estratégia traçada pela campanha: projetar uma imagem de estadista e dirigir falas específicas ao eleitorado feminino, público em que o senador registra maior rejeição.

A palavra “estadista” aparece circulada à caneta no topo direito do papel, que mistura pontos principais impressos e comentários escritos à mão. O documento foi fotografado pela Folha quando o senador embarcava, na tarde desta sexta, de Brasília para o Rio de Janeiro, cidade que receberá o debate. Ele não concedeu entrevista à imprensa no aeroporto.

A mudança de postura responde à avaliação interna sobre o debate anterior, no domingo (18), na TV Bandeirantes, quando a linha combativa contra Lula (PT) foi criticada e apontada como fator de rejeição até por aliados. Com empate registrado no Datafolha, o encontro a dois dias da votação é tratado como prioritário pelas duas campanhas. O programa terá quatro blocos e restrição à movimentação.

Aposta no eleitorado feminino

No alto da página, o foco nas mulheres fica evidente. “Mulheres – falar para elas; preço do mercado – falar para elas; segurança – falar para elas”, registrou o senador. A campanha já insiste em custo de vida e insegurança, mas a orientação é tratar dos temas a partir do impacto sobre mulheres e mães de família.

Plano dividido por regiões

O material de estudo está organizado por regiões do país, já que o primeiro bloco definido pela Globo terá seis rodadas com assuntos regionais e um tema nacional prioritário.

Para o Centro-Oeste, a anotação “agro forte (x fascista)” vem acompanhada da frase “quem produz tá quebrado”. Flávio deve sustentar que o governo Lula não aplica recursos suficientes na região, criticando contingenciamento, taxa de juros e insegurança jurídica, além de prometer mais armazéns para a produção.

No Sudeste, o alvo é a alta dos preços, com as frases “salário acaba antes do mês” e “última vez no mercado”. Entre as propostas estão segurança pública e integração com governadores e prefeitos aliados, além do Smart Brasil, monitoramento por câmeras inspirado no Smart Sampa, da Prefeitura de São Paulo. O UOL revelou que uma falha de segurança permitiu acesso indevido a 58 mil câmeras do programa.

No plano para o Nordeste aparecem segurança pública, energia, irrigação e Bolsa Família, com a anotação “R$ 600, não perde se trabalhar”. O candidato deve citar que as dez cidades mais violentas do Brasil estão na região, segundo o Anuário de Segurança Pública, mencionando Maranguape (CE), Eunápolis (BA) e Maracanaú (CE).

Sobre o Sul, escreveu “as chuvas voltaram” e listou dique, comportas e bombas de água em relação a Porto Alegre, além de obras de prevenção e menção a “células de terrorismo” em Foz do Iguaçu. Na Norte, registrou “asfalto x lamaçal (atoleiro)”.

Preparação reforçada

Aliados avaliam que o senador precisa exibir mais conteúdo e menos ataques do que na Band. Por isso, reservou dois dias da agenda a treinamentos e não teve compromissos públicos além do próprio debate.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), esteve em Brasília na quinta e na sexta para ajudar na preparação, acompanhou o presidenciável no voo ao Rio e assistirá ao debate nos estúdios. O convite partiu do marqueteiro do PL, Duda Lima, em estratégia para reduzir o efeito Pablo Marçal na campanha — o tom agressivo na Band foi atribuído a conselhos do influenciador, visto por aliados como fonte de rejeição.