O apoio dos partidos do centrão à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência desencadeou uma disputa por indicações para um eventual governo, ainda antes da apuração final do pleito.

O candidato tem demonstrado disposição de dividir o poder com legendas aliadas e acolhe pedidos, enquanto avalia antecipar o anúncio de dois ou três ministros antes mesmo do segundo turno, na tentativa de transmitir um perfil mais técnico à futura equipe.

Negociações em curso

Em Brasília, lideranças de centro e de direita já encaram o momento como uma espécie de transição de governo, depois de Flávio ter liderado as votações no primeiro turno contra Lula. O próprio senador fez declarações nesse sentido, embora uma ala do PL defenda cautela.

Na reunião com o Republicanos, realizada na quarta-feira (7), foi discutida a indicação de dois ministros pelo partido, conforme três parlamentares ouvidos sob reserva. A legenda também pediu apoio para a recondução de Hugo Motta (Republicanos-PB) à presidência da Câmara.

Segundo interlocutores, o presidente nacional do Republicanos, deputado reeleito Marcos Pereira (SP), ouviu de Flávio que há forte resistência em seu grupo a Motta. A mensagem da campanha é de que definições sobre o comando do Congresso só serão tratadas depois das eleições.

Nomes cotados

Um nome trabalhado pelo Republicanos é o do deputado Pedro Lupion (PR), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária. Flávio recebeu o apoio do grupo antes da eleição e prometeu que a escolha do ministro da Agricultura caberá à bancada ruralista. Lupion só ficaria de fora se decidir disputar a presidência da Câmara.

União Brasil e PP também reivindicam dois ministérios cada, com as pastas exatas a serem negociadas depois. De acordo com interlocutores de Flávio, o candidato se comprometeu apenas a garantir espaços para o grupo, o que deve ampliar a governabilidade no Congresso, com apoio suficiente para mudar a Constituição.

A senadora Tereza Cristina (PP-MS) disputa a presidência do Senado, mas indicou intenção de assumir ou influenciar o Ministério das Relações Exteriores, para evitar uma guinada radical na política externa pela atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL). O agronegócio teme que um alinhamento maior com os Estados Unidos prejudique negócios com a China.

Outro nome citado é o do ex-governador de Mato Grosso Mauro Mendes (União Brasil), eleito senador, mencionado em discussões sobre o Ministério de Minas e Energia. Sua saída abriria vaga no Senado para o suplente Cidinho Santos (PP), próximo da família Bolsonaro.

O União Brasil ainda deseja emplacar ACM Neto, derrotado na disputa pelo governo da Bahia, embora parte dos deputados defenda que a bancada na Câmara decida quem integrará o eventual governo. O grupo também pretende controlar a Codevasf.

Antecipação e cautela

Flávio já anunciou durante a campanha que o médico Claudio Lottenberg, presidente licenciado do Hospital Israelita Albert Einstein, pode comandar o Ministério da Saúde. A escolha buscou dar verniz técnico ao futuro ministério e afastar críticas sobre a atuação negacionista do governo Jair Bolsonaro (PL) na pandemia. Lottenberg, porém, enfrenta resistências de bolsonaristas e falta de apoio na comunidade médica.

O candidato estuda divulgar mais ministros antes do segundo turno, mas a área econômica não estaria entre os anúncios, para evitar ataques e cobranças sobre os planos econômicos. A ex-presidente da Caixa Daniella Marques, porta-voz da campanha, deve assumir um ministério turbinado na área social.

Apesar de o PSD ter ficado neutro no segundo turno, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado declarou voto em Flávio e é citado para pastas como Segurança Pública ou Agricultura, caso conte com o apoio da bancada ruralista. Sua esposa, Gracinha Caiado (União Brasil), foi eleita senadora.