O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques, determinou a derrubada do canal de WhatsApp do deputado André Janones (Rede-MG), o “Exército do Lula”, sem que houvesse indícios ou documentos nos autos mostrando que as fake news apontadas circulavam no grupo.
A ordem partiu de ação da campanha de Flávio Bolsonaro (PL). Na Aije (Ação de Investigação Judicial Eleitoral), os advogados afirmavam que o canal divulgava conteúdos já considerados desinformativos e proibidos pelo tribunal em decisões de Kassio e do ministro André Mendonça. Entre os pontos citados estavam fake news sobre Nossa Senhora, suposta ligação de Flávio com milícias, lavagem de dinheiro na Kopenhagen e cortes no INSS.
Contudo, o jurídico da campanha não anexou nenhum documento — como atas notariais ou registros digitais — que comprovasse a presença desses conteúdos no canal. A ausência de provas levou o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Cueva, relator da ação, a pedir esclarecimentos e documentos.
Anexos sem ligação com o canal
Quarenta minutos após o pedido de Cueva, a campanha encaminhou requerimento a Kassio com alguns anexos. Havia uma página listando vídeos postados por Janones no Instagram, alguns sobre temas já vedados pelo TSE e derrubados pela Meta. Nenhum anexo, porém, mostrava que esse material tivesse sido encontrado no canal de WhatsApp. Mesmo assim, Kassio mandou derrubar o grupo.
A censura foi revertida por Cueva poucas horas depois, e o canal voltou ao ar. No domingo (11), Kassio determinou que a Assessoria de Enfrentamento à Desinformação do TSE investigasse o conteúdo publicado no canal.
Relatório técnico não encontra os conteúdos
Nesta segunda-feira (12), a área técnica do tribunal anexou à Aije um relatório afirmando não ter localizado nenhum dos conteúdos alegados na ação de Flávio. “Quanto à circulação de conteúdos idênticos ou substancialmente equivalentes, não foram localizadas, entre as publicações do canal no período de 2 a 11 de outubro de 2026, reproduções das afirmações examinadas nos autos”, diz o documento assinado por Frederico Franco Alvim, assessor especial de enfrentamento à desinformação. O texto ressalva que publicações podem ter sido apagadas.
Procurada, a advogada da campanha, Maria Claudia Bucchianneri, afirmou ter informado ao tribunal que não havia notas atuariais das postagens devido ao grande volume de material e que a apuração deveria ter sido feita pelo próprio TSE. Segundo ela, um espelhamento em tempo real do canal será encaminhado ao tribunal, mas pode não ter preservado publicações apagadas rapidamente.
Defesa da campanha
Em nota, a assessoria do candidato afirmou que o canal tinha “a estratégia de apagar sistematicamente comandos e os conteúdos disparados, justamente para inviabilizar o controle tanto pela plataforma, como pelo TSE”. A campanha disse ainda que a ação foi movida em segredo de Justiça, com pedido para que assim permanecesse até que a Meta conservasse os dados do canal, e criticou Cueva por ter retirado o sigilo dos autos sem determinar a conservação de dados.
Para a defesa, a assessoria de enfrentamento à desinformação não detectou os ilícitos “justamente porque eles estão nos links, e não nos comandos”, inacessíveis após o apagamento dos dados.
Repercussão
O canal de Janones, que chegou rapidamente a 3 milhões de usuários, é uma das apostas da campanha de Lula para mobilizar a tropa digital, área em que a direita costuma ter protagonismo. No domingo, durante ato na Avenida Paulista, Lula classificou a decisão de Kassio como “absurda” e disse estar “desconfiado do comportamento da corte eleitoral”. Ministros de uma ala do TSE afirmaram extraoficialmente haver indícios de engajamento do presidente do tribunal na campanha de Flávio, e especialistas em direito eleitoral questionaram a postura do magistrado.
