No passado, as democracias costumavam morrer com golpes de Estado e intervenções militares. Hoje, o cenário é outro: os colapsos democráticos ocorrem pela via das eleições, com escolhas feitas nas urnas por eleitores comuns.
A história registra diversos enterros da democracia. Um dos exemplos mais clássicos e chocantes é o desfecho da progressista República de Weimar, que desembocou na Alemanha nazista de Hitler.
No século 21, entretanto, prevalece a ideia confortante de que as democracias liberais são eternas — de que, uma vez democrático, um país permaneceria democrático para sempre, e a liberdade seria um dado adquirido. Os fatos, porém, contradizem essa narrativa. As mudanças de rumo em direção às autocracias acontecem, atualmente, pela via democrática: por meio das urnas, em eleições livres.
Quatro sinais de alerta
Dois cientistas políticos de Harvard, Levitsky e Ziblatt, descreveram esses processos de degeneração e os sinais de alerta de um autocrata. Segundo os pesquisadores, são quatro os principais indicadores da vocação autoritária de um candidato:
1. Rejeição das regras democráticas, incluindo a recusa em aceitar derrotas eleitorais ou o questionamento do Estado de Direito, com tentativas de reverter decisões judiciais.
2. Negação da legitimidade dos adversários, que passam a ser tratados como traidores, criminosos ou inimigos internos.
3. Tolerância, incentivo ou justificação da violência política.
4. Disposição para restringir liberdades civis, em especial a liberdade de imprensa, de expressão, de protesto ou religiosa.
O salvador da pátria
O que a história e a ciência mostram é que os aspirantes a autocratas se aproveitam das crises. Começam afirmando que o sistema está podre e que a democracia está falhando. Vendem-se como salvadores da pátria, como a voz do povo contra as elites.
Um exemplo é o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que saudou apoiadores em Budapeste durante as eleições gerais do país, em 12 de abril de 2026.
Antes de chegar ao poder, esses líderes deixam perceptíveis alguns dos quatro sinais — mas o povo prefere não acreditar. A cena lembra o lobo mau que bate na porta dos três porquinhos, anuncia que vai comê-los e, ainda assim, é recebido, porque os porquinhos acham que tudo não passa de brincadeira.
Uma vez eleitos, os líderes autocratas tentam capturar ou dominar os árbitros da democracia: os tribunais, as forças policiais e a máquina do Estado. Em seguida, alteram as regras do jogo e as leis a seu favor. No caminho, enfraquecem os adversários, a imprensa livre e a sociedade civil. Restam apenas os aliados e os covardes. Mesmo que eleições continuem a ser realizadas, deixam de ser plurais e livres.
É triste observar populações consumidas por essa espécie de atração fatal sem saber ler os sinais de alerta. Os candidatos a autocratas, no entanto, estão por toda parte — num cartaz ou numa urna de votação bem perto do eleitor.
