Crítica de Renan Santos expõe ausência de agenda econômica nas eleições
“Nós somos uns idiotas”. A frase foi dita pelo ex-candidato Renan Santos durante uma live, ao lamentar o fraco desempenho de seu partido, o Missão. Apontando para o livro de propostas que produziu, ele afirmou que apresentar soluções para a coisa pública teria se tornado algo ultrapassado. Na avaliação dele, o político atual existe apenas para validar sua bolha. “Como é que a gente gastou nosso tempo?”, questionou.
Apesar de frequentemente divergir das posições de Renan Santos, a economista Deborah Bizarria, colunista da Folha, reconhece que a crítica tem fundamento. A menos de uma semana do segundo turno, ainda não se sabe como o próximo governo e o Congresso eleito enfrentarão os desafios econômicos do país.
Os candidatos e suas equipes tentam convencer o eleitorado de que equilibrarão as contas públicas. Para Bizarria, porém, uma agenda de crescimento exige ir além do ajuste fiscal: é preciso definir as mudanças necessárias para ampliar a produtividade e a renda, além de construir apoio político para implementá-las.
Produtividade como eixo central
Na prática, elevar a produtividade significa gerar mais valor com os mesmos recursos. Se cada hora trabalhada gera mais renda, torna-se possível reduzir o custo de vida, encurtar a jornada de trabalho e financiar políticas que diminuam as desigualdades.
Para viabilizar esses ganhos, o governo eleito precisará facilitar o acesso a insumos e tecnologias e melhorar a infraestrutura. Segundo o estudo sobre produtividade do CDPP (Centro de Debate de Políticas Públicas), os investimentos devem ser escolhidos pelos benefícios que trazem à população e garantir continuidade entre mandatos.
Outro ponto apontado é que as empresas mais eficientes precisam de espaço para crescer e conquistar mercados. Barreiras à entrada e proteções setoriais, no entanto, podem limitar essa expansão e manter capital e trabalho presos em atividades menos produtivas. Rever essas regras exige contrariar seus beneficiários, inclusive entre aliados do governo.
Interesses e obstáculos políticos
A renovação dos incentivos às empresas deveria depender de ganhos de produtividade. Uma avaliação do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), publicada em 2017, identificou poucos efeitos positivos nos programas examinados, com muitos resultados inconclusivos.
O apoio político de setores beneficiados, porém, pesa nas decisões dos governantes, como formalizaram os economistas Gene Grossman e Elhanan Helpman. Na reforma tributária, por exemplo, a promessa de simplificação cedeu espaço a exceções e regimes diferenciados, incluindo a redução de tributos para parques aquáticos. Em alguns casos, o poder de barganha de um setor atropela a lógica dos ganhos para a sociedade.
Com ou sem maioria no Congresso, o próximo presidente precisará negociar essas escolhas e enfrentar interesses conflitantes entre seus aliados. Parlamentares unidos na defesa de valores e na oposição a adversários podem se dividir na hora de decidir quais subsídios cortar ou quais investimentos priorizar.
A incerteza sobre quem ganha e quem perde também pode bloquear reformas que, depois de realizadas, teriam apoio popular, conforme estudo de Raquel Fernández e Dani Rodrik. Por isso, qualificação profissional, auxílio na busca de emprego e proteção da renda precisam integrar a transição, com compromissos que a população possa cobrar.
O receio da colunista é que a influência conquistada nas redes continue servindo apenas para reforçar lealdades e poupar os eleitos do desgaste de contrariar a própria base. Um livro de propostas pode render poucos votos, mas governar e gerar prosperidade seguirão exigindo decisões difíceis e coragem para defendê-las.
