A duração do dia na Terra não é fixa. Pequenas variações de milissegundos registradas ao longo de décadas têm origem nas profundezas do planeta: segundo pesquisa publicada na revista Nature em 23 de setembro de 2026, movimentos do núcleo interno interagem gravitacionalmente com o manto e alteram discretamente a velocidade de rotação terrestre.
Como o núcleo interno interfere na rotação
O núcleo interno é uma esfera predominantemente metálica localizada a mais de 5.000 quilômetros de profundidade. Envolto pelo núcleo externo líquido, ele gira de forma ligeiramente diferente do manto rochoso que o cerca. Essa diferença desalinha regiões de densidade desigual nas camadas profundas do planeta.
A gravidade, então, age para restabelecer o alinhamento, aplicando um torque sobre o manto. Dependendo da direção da força, a rotação do planeta pode acelerar ou desacelerar levemente — o suficiente para mudar a duração do dia em alguns milissegundos ao longo de décadas.
Disputa de forças nas profundezas
O mecanismo não exige contato direto entre as camadas. Ao mesmo tempo em que a atração gravitacional puxa as estruturas, movimentos do ferro líquido no núcleo externo geram forças eletromagnéticas e pressões sobre irregularidades na fronteira com o manto. O resultado é uma disputa entre torques gravitacionais, eletromagnéticos e topográficos.
Segundo as simulações, a contribuição gravitacional predomina nas oscilações mais lentas, enquanto as demais forças atuam em sentido contrário, regulando a intensidade das mudanças. Os pesquisadores identificaram cinco pontos centrais: a duração do dia oscila em milissegundos por décadas; o núcleo interno se move em relação ao manto; a atração gravitacional atua entre massas distribuídas de forma desigual; forças eletromagnéticas e topográficas resistem ao movimento; e o modelo reproduz oscilações observadas em cerca de 55 anos.
Evidências e números do estudo
O trabalho foi conduzido por Huifeng Zhang e Mathieu Dumberry, da Universidade de Alberta, no Canadá. Os cientistas combinaram reconstruções sísmicas da rotação do núcleo interno, dados do campo magnético terrestre e registros históricos da duração do dia, focando no período entre 1964 e 2019, após descontar efeitos atmosféricos, oceânicos e tendências de longo prazo.
O modelo gravitacional reproduziu de forma satisfatória oscilações com períodos próximos de 60 a 70 anos. Os autores estimaram que a oscilação relativa do núcleo interno tem amplitude de aproximadamente 2,35 graus ao longo de um ciclo multidecadal, e que o torque gravitacional necessário fica na ordem de 10¹⁹ newton-metros — valor expressivo, mas que gera efeitos mínimos diante da enorme inércia rotacional do planeta.
O estudo também indica que deformações do núcleo interno podem relaxar em poucos anos, o que ajuda a explicar por que mecanismos físicos diferentes dominam oscilações em escalas de tempo distintas.
Janela para as profundezas do planeta
As oscilações oferecem um caminho indireto para investigar materiais situados milhares de quilômetros abaixo da superfície. Os resultados são compatíveis com estruturas profundas do manto de propriedades químicas particulares e com possíveis camadas enriquecidas em ferro próximas à fronteira com o núcleo externo.
Há limitações: a pesquisa não afirma que todas as variações diárias decorram do núcleo interno, já que atmosfera, oceanos e marés também influenciam a rotação. A principal contribuição é explicar as oscilações multidecadais por interações gravitacionais, abrindo novas possibilidades para entender a dinâmica e a composição das regiões mais profundas da Terra.