Lula e Flávio Bolsonaro passaram boa parte das eleições tentando não dividir o mesmo palco. Os dois principais candidatos à Presidência da República apresentaram desculpas diferentes para fugir dos debates televisivos, mas chegaram à mesma conclusão: não valia a pena.
Fuga estratégica no primeiro turno
Na etapa inicial da disputa, o petista não tinha interesse em despender tempo diante dos nomes coadjuvantes Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (PSD). Flávio também não parecia disposto ao embate, mas por outro motivo: sem Lula no palco, participar não faria sentido.
No fim, nenhum dos dois precisou se preocupar. A polarização, consolidada a ponto de praticamente eliminar os candidatos de terceira via, levou ambos ao segundo turno.
Ataques no lugar de propostas
Quando, enfim, ficaram frente a frente, no primeiro debate televisionado da reta final, o que se viu foi uma sequência de acusações, ofensas e xingamentos. Propostas, quase nenhuma. O quadro pode dizer mais sobre a campanha de 2026 do que sobre o próprio encontro.
Para o eleitor, ao menos segundo pesquisas qualitativas realizadas pelos partidos, o programa exibido pela Band não fez diferença. O debate da Globo, marcado para esta sexta-feira, pode ter algum peso, na avaliação de especialistas em marketing. Será difícil, contudo, que produza uma virada. O público potencial do programa é formado sobretudo pelo eleitor que passou a campanha inteira indiferente à eleição — e esse contingente é pequeno.
Palanque menor, celular no centro
O esvaziamento dos debates é apenas uma das evidências de uma transformação mais profunda. A campanha de 2026 reduziu o tamanho do palanque, diminuiu a importância da televisão e levou a disputa para onde o eleitor passa boa parte do dia: o celular.
A militância digital ganhou espaço frente à militância de rua. Os programas eleitorais perderam relevância. E a propaganda política, ao menos no duelo entre Lula e Flávio, parece ter encontrado uma nova linguagem.
A mudança, porém, pode não ser temporária: a inteligência artificial e a distribuição paga de conteúdo aparecem como parte do novo cenário da disputa.