Jantar fora da agenda oficial
Mensagens extraídas do celular do empresário Daniel Vorcaro pela Polícia Federal e obtidas pela Folha indicam que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, participou de um jantar restrito na residência do então dono do Banco Master, em Brasília, no dia 23 de outubro de 2024. O encontro ocorreu fora da agenda oficial e não consta nos compromissos públicos do ministro.
Na ocasião, Padilha comandava a Secretaria de Relações Institucionais, responsável pela articulação política do governo. Também participaram do encontro o secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, hoje presidente da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), um primo de Vorcaro, um assessor e o consultor Júlio Cezar — cinco pessoas ao todo.
Na véspera, Júlio Cezar confirmou ao banqueiro, por mensagem, o jantar com Padilha e Olavo marcado para as 22 horas em Brasília. No dia seguinte, avisou que Padilha já estava a caminho, pediu o endereço do local — Vorcaro enviou o da própria residência — e informou que os convidados haviam chegado ao portão da casa.
Naquele dia, Padilha havia participado, durante a tarde, de um evento do PAC em Natal e, às 20h30, compareceu a um lançamento de livro em homenagem ao ministro Dias Toffoli, no STF (Supremo Tribunal Federal).
Caminho até Lula
O jantar ocorreu menos de dois meses antes de Vorcaro se reunir com o presidente Lula no Palácio do Planalto, em 4 de dezembro, encontro intermediado pelo ex-ministro Guido Mantega. À época, o banqueiro tentava se aproximar de interlocutores do presidente e tinha interesses na área da Saúde — pasta que Padilha comandou no governo Dilma Rousseff e voltaria a assumir em março de 2025.
Nas mensagens, Vorcaro reclamou com Lula sobre a concentração do mercado bancário no Brasil. O presidente teria respondido que o tema deveria ser analisado pelo Banco Central e pedido que Gabriel Galípolo, presidente da instituição, examinasse a questão.
Contatos prévios e interesses na Saúde
As conversas mostram que, antes do jantar, Vorcaro já mantinha contato com Noleto por intermediação do ex-ministro e empresário Walfrido dos Mares Guia. Em março de 2024, Mares Guia avisou ao banqueiro que o “braço direito do ministro Padilha” havia dito que “gostou muito” dele.
Naquele período, Vorcaro havia comprado 25% das ações da farmacêutica Biomm, que firmou parceria com o governo no ano seguinte para o fornecimento de insulina ao Ministério da Saúde. Em abril de 2024, o empresário lamentou, por mensagem, não poder comparecer à inauguração da fábrica da empresa em Nova Lima (MG), marcada para 26 de abril e com presença de Lula, porque estaria em Londres em um fórum patrocinado pelo Master que contou com os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Dias depois do jantar, em 25 de outubro, Mares Guia comunicou que teria audiência com o vice-presidente Geraldo Alckmin e com Lula em Brasília. Vorcaro respondeu que precisava muito ver o presidente “por conta desses ataques que tenho sofrido” e pediu ajuda ao ex-ministro.
Resposta do ministro
Procurados, Padilha e Noleto não explicaram o que foi discutido no encontro. Em nota, a assessoria do ministro afirmou que ele “comparecia diariamente a eventos com representantes de diversos setores”, que em 2024 não atuava como ministro da Saúde e que “não houve qualquer desdobramento em relação ao evento mencionado”. O comunicado destaca ainda que, na data das mensagens, não havia “nenhuma acusação envolvendo a instituição financeira”.
