A Polícia Federal (PF) investiga se o advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), montou uma estrutura empresarial coordenada com o objetivo de esconder ou dificultar o rastreamento de valores e do destino de pagamentos no mercado de loterias do Rio de Janeiro.

Em documento enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), a PF afirma que existem indícios de que Tomaz exerceria controle ou propriedade de fato sobre a Rede Loto, primeira empresa autorizada pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) a explorar apostas esportivas de quota fixa, com concessão inicial de até cinco anos.

Segundo os investigadores, chama atenção a proximidade do advogado com o ex-presidente da Loterj, Hazenclever Lopes Cançado, com o ex-governador Cláudio Castro e com a Pixs/Rio Pag, operadora responsável pelos pagamentos de apostas das lotéricas e bets credenciadas pela autarquia.

A análise consta do pedido de abertura de inquérito apresentado pela PF ao STF, que aponta suposta prática de lavagem de dinheiro envolvendo Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro. Ambos negam qualquer irregularidade.

Autorização para processar apostas

Em 2023, a Pixs/Rio Pag venceu um edital da Loterj para processar os pagamentos dos apostadores às operadoras autorizadas. Para a PF, a empresa pertenceria de fato a Willer Tomaz, embora o nome dele não apareça no quadro societário — o que, segundo a corporação, indicaria controle efetivo e interesse econômico para além da atuação dele como advogado.

Ao analisar dados da nuvem do advogado, a PF localizou um e-mail de 2024 do Magnum Bank, banco digital usado por ele, solicitando informações de compliance sobre empresas vinculadas ao seu nome. Na resposta, Tomaz reconheceu ser sócio e acionista de diversas empresas, entre elas a Pixs/Rio Pag. A informação foi revelada pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, e confirmada pelo g1.

Relação com a presidência da Loterj

Os investigadores também identificaram transferências únicas de aproximadamente R$ 500 mil, R$ 5 milhões, R$ 6 milhões e R$ 13 milhões destinadas à RIOPAG S.A. e a contas do próprio Willer.

Depois da Pixs/Rio Pag, a Loterj credenciou a Rede Loto para explorar apostas online, também durante a gestão de Hazenclever. Segundo o relatório da PF, o ex-presidente da autarquia tinha proximidade profissional e pessoal com Tomaz, registrada em diferentes documentos, e assinou o contrato com a Pixs.

O documento aponta ainda que a relação profissional entre os dois existia ao menos desde 2021, antes da nomeação de Hazenclever para a presidência da Loterj, em julho de 2022. Para a PF, essa rede de relações, somada ao resultado do certame e ao suposto controle da Pixs por Tomaz, poderia ter facilitado a defesa dos interesses da empresa junto à autarquia e ao Governo do Estado.

Nas investigações, Willer Tomaz surge como possível ponto de concentração e redistribuição de valores, conectando empresas formalmente vinculadas e diversas contrapartes financeiras.

‘Usuário master’

No celular do advogado, a PF encontrou e-mails mostrando que Flávio Bolsonaro foi cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa dele registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, no mesmo endereço da Cathedral, outra companhia do advogado.

De acordo com a PF, a Cathedral teria sido usada para pagar viagens de férias de Flávio Bolsonaro e da família à Europa em maio do ano passado. A Cathedral, por sua vez, é dona da Best Bet, que integraria a Rede Loto.

O que dizem as defesas

A defesa de Willer Tomaz afirmou, em nota, que “não há nada oculto”, explicando que a Rio Pag pertence à Capital Pretium, integralmente detida pela Embrasis, cujas ações pertencem a sociedades das quais Tomaz é acionista — participação indireta em cadeia de empresas regularmente constituídas. Segundo a defesa, a atuação dele junto à Rio Pag “sempre foi como advogado” e ele jamais movimentou, como pessoa física, contas da empresa.

Já a defesa de Flávio Bolsonaro afirmou, na ocasião da abertura do inquérito, que a única relação entre os dois é de amizade entre as famílias, e que qualquer tentativa de insinuar irregularidades a partir dessa afinidade pessoal seria mera ilação, sem fundamento nos fatos.