Notas sem detalhamento

O escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, enquanto exercia o mandato no Senado. Metade das notas teve como pagadores outros advogados.

Levantamento do UOL sobre 62 comprovantes apontou que a maioria traz apenas a descrição “assessoria jurídica”, sem detalhar serviços. Em sistemas dos tribunais estaduais, federais e de instâncias superiores, a reportagem localizou apenas um processo em que o senador atuou para os clientes das notas.

Clientes questionados também não especificaram a atuação do parlamentar. O trabalho advocatício não depende necessariamente de processos — pode envolver consultoria, assessoria e orientação jurídica, com elaboração de pareceres.

Vínculo com investigação

A banca foi aberta em 16 de abril de 2021 e tem como administradora Letícia Caetano dos Reis, irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, preso em dezembro de 2025 sob suspeita de participação nas fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Flávio é o único titular da sociedade, que funciona na própria casa dele, uma mansão no Lago Sul, em Brasília, sem outros funcionários.

Parlamentares podem manter profissões paralelas ao mandato, desde que cumpram requisitos. Na advocacia, o senador não pode integrar a mesa diretora do Senado nem atuar em causas de órgãos públicos, estatais e autarquias.

O escritório está na mira da PF, que apura as transações da empresa em inquérito aberto na última semana, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes no STF. A investigação começou após indícios de eventual compartilhamento de contas entre o senador e o advogado Willer Tomaz, amigo dele. Ambos negam.

Segundo as notas, os pagamentos foram feitos em contas no Santander e no BRB (Banco de Brasília). A conta do Santander citada em um dos documentos é a mesma cuja titularidade, segundo a PF, Flávio dividia com Tomaz — a suspeita dessa conexão financeira motivou o novo inquérito por possível envolvimento com as fraudes no INSS.

O candidato do PL já é alvo de apuração no financiamento do filme “Dark Horse”. Embora conhecida a atuação dele como advogado, os dados sobre as notas são inéditos. No debate da Band no último domingo, o tema surgiu indiretamente quando Lula desafiou Flávio a abrir suas contas. Procurada, a campanha não respondeu até a publicação da reportagem.

Maior cliente

O principal pagador é um escritório que tem como sócio o advogado Edvaldo Nilo de Almeida, nomeado por Jair Bolsonaro (PL) para a Comissão de Ética Pública da Presidência em 2022. A lista inclui ainda uma indústria de doces, um empresário do setor de energia e outros advogados, entre eles um que defendeu o ex-presidente.

O Nilo & Almeida Advogados Associados emitiu duas notas de R$ 2 milhões cada, em agosto e outubro de 2025 — juntas, 29% do faturamento documentado da firma. Os documentos descrevem o serviço como “assessoria jurídica” e indicam conta da banca de Flávio no BRB para pagamento.

Nilo afirmou que os valores se referem a um contrato de abril de 2025. “Os serviços foram regularmente prestados conjuntamente pelos dois escritórios a clientes privados, em casos sem qualquer envolvimento de recursos públicos ou participação de entes federativos”, declarou. Ele não detalhou clientes nem casos e disse que o contrato foi encerrado após os serviços.

Nilo integrou a Comissão de Ética Pública entre 2022 e 2025. Hoje é conselheiro do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), na vaga indicada pela Câmara dos Deputados, com apoio do deputado Elmar Nascimento (União). As notas foram emitidas no ano em que ele buscava a recondução no órgão, aprovada pelo Senado em 12 de novembro de 2025.