A campanha à reeleição do presidente Lula (PT), que chega ao segundo turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), foi marcada por desavenças no comitê eleitoral, erros políticos e divergências sobre a estratégia de comunicação. As falhas foram atribuídas tanto à equipe quanto ao próprio candidato.

As pesquisas das últimas semanas apontavam uma disputa acirrada, com crescimento do rival, mas o petista aparecia numericamente à frente nas intenções de voto. Com quase 99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro registrava 47,25% dos votos válidos, contra 44,90% de Lula.

A escassez de material de campanha e as rixas na área de comunicação estão entre os problemas enfrentados pelo plano de reeleição. Lula chegou à reta final sem enfraquecer o adversário nem capturar o eleitorado indeciso e as migrações do chamado voto útil.

Lideranças do PT avaliam que a comunicação precisará passar por mudanças profundas para tentar reverter o resultado do primeiro turno.

Discurso na reta final

Ao votar neste domingo (4), Lula disse estar confiante na vitória e afirmou que o Brasil está entre a democracia e a barbárie. “O que está em jogo é a definição de um projeto de Brasil. O povo vai ter que escolher entre o fortalecimento da democracia e a barbárie”, declarou, em ataques indiretos ao adversário. “O Brasil não vai para frente com miliciano. O Brasil não vai para frente com a ideia que se fez com o Banco Master.”

O presidente havia minimizado as pesquisas mais recentes, que indicavam oscilação positiva de Flávio, e disse que valeria apenas o resultado das urnas.

Decisões políticas questionadas

Em São Paulo, um dos principais colégios eleitorais do país, o desempenho de Lula também ficou abaixo do esperado, com Flávio à frente. As pesquisas de véspera apontavam empate técnico. Os números se aproximam da derrota de Fernando Haddad (PT) para Tarcísio de Freitas (Republicanos) no primeiro turno. O palanque petista ao Senado no estado também fracassou: nem Marina Silva (Rede), nem Simone Tebet (PSB) foram eleitas.

Aliados apontam, sob reservas, erros em decisões políticas. Lula contrariou seus estrategistas ao recusar o debate da Globo, reservando o confronto direto com Flávio para o segundo turno. Também desconsiderou pesquisas ao escalar a primeira-dama, Janja, para a interlocução com o eleitorado feminino.

Na montagem de palanques, o presidente insistiu no lançamento do senador Rodrigo Pacheco (PSB) ao governo de Minas Gerais, o que atrasou a estruturação da campanha no estado. Pacheco recusou a candidatura, e o PT lançou Patrus Ananias somente no fim de julho.

Descoordenação interna

A falta de entrosamento na comunicação é apontada como uma das principais causas da descoordenação. O desalinhamento foi tamanho que Lula recebeu empresários no Palácio do Alvorada sem que o responsável pela agenda, Gilberto Carvalho, e o tesoureiro da campanha, José de Filippi, fossem informados até a noite da véspera.

O atraso na distribuição de material para os estados gerou troca de acusações entre o coordenador-geral da campanha, Edinho Silva, e o ex-presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, sobre responsabilidades.

Dentro da campanha, três grupos coexistiam na definição da linha de comunicação: o do ministro-chefe da Secom, Sidônio Palmeira; o do fotógrafo oficial do presidente, Ricardo Stuckert; e o da coordenadora de redes do PT, Nicole Briones. Nicole defendia um tom mais combativo, com exploração das mazelas do governo Bolsonaro, enquanto Sidônio insistia na defesa do legado presidencial. Cabia a Stuckert definir o conteúdo publicado na página do presidente, e as primeiras peças publicitárias seguiram o tom defendido por Sidônio.