Vínculos de Flávio Bolsonaro com milicianos viram alvo de Lula na campanha
Em junho de 2005, ainda em seu primeiro mandato como deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro apresentou proposta para conceder a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia fluminense, ao ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega. Na justificativa, destacou que o militar havia prendido 12 criminosos no Morro da Coroa e apreendido fuzis, pistolas, granadas e drogas, quatro anos antes.
Filiado ao PP na época, Flávio foi pessoalmente à prisão entregar a comenda a Adriano, que estava detido sob acusação de matar um flanelinha que teria denunciado tortura e extorsão. Anos depois, o senador confirmou ter visitado diversas vezes o Batalhão Especial Prisional, alegando que buscava ouvir policiais militares presos injustamente.
Adriano viria a ser apontado como um dos líderes da milícia carioca e do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime. Foragido desde 2019, foi localizado em 2020, em uma área rural da Bahia, e morto em operação policial. Após a morte, o então presidente Jair Bolsonaro afirmou ter sido ele quem pediu ao filho que agraciasse o ex-capitão, dizendo que, naquele ano, ele era considerado um herói da Polícia Militar.
Ataques no debate
Episódios como esse tornaram-se munição para o presidente Lula (PT), que explora na campanha eleitoral as supostas ligações de Flávio com grupos milicianos. No debate da Band deste domingo (18), quando o senador pediu que o presidente se aproximasse dele durante uma resposta, Lula recusou: “Quero distância de miliciano”.
Dias antes do primeiro turno, em São Gonçalo (RJ), o petista fez declaração semelhante, afirmando que o Planalto não pode abrigar a representação de milicianos. Procurada na sexta-feira (16), a campanha de Flávio não respondeu às perguntas da reportagem.
O candidato do PL costuma rebater as críticas afirmando que as propostas de segurança do adversário são vazias e que “os bandidos sempre ficam felizes” quando Lula fala no tema. Flávio defende classificar facções e milícias como grupos narcoterroristas. Em seus primeiros discursos como pré-candidato, citava apenas o PCC e o Comando Vermelho, mas passou a incluir nominalmente as milícias a partir de junho. “Qualquer criminoso que imponha medo coletivo e adote as práticas do CV e PCC tem de ser enquadrado como terrorista, [milicianos] incluídos”, declarou em fórum da revista Veja.
O que dizem os especialistas
Segundo o sociólogo José Cláudio Sousa Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, não há provas materiais de envolvimento direto do candidato com as redes criminosas formadas por policiais e ex-policiais que controlam territórios e extorquem moradores e comerciantes. “Em termos de participação em esquemas milicianos, em compra de votos, recebimento de grana, isso aí não tem. Eles não são burros a esse ponto”, afirma o pesquisador.
Para Alves, o vínculo se manifesta em afinidades ideológicas: discursos e práticas que reforçam a lógica das milícias, do extermínio e da execução sumária, além do aplauso a operações sangrentas.
Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP e autor de “A República das Milícias”, vê a ligação com dois nomes publicamente associados à milícia como o aspecto mais próximo “de um batom na cueca”. Adriano da Nóbrega, já conhecido como um dos maiores matadores do Rio, teve a mãe e a ex-esposa contratadas para o gabinete de Flávio na Assembleia — Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa foram exoneradas em novembro de 2018. A intermediação teria sido feita por Fabrício Queiroz, homem de confiança dos Bolsonaro havia anos.
