Resultado apertado mantém eleição indefinida

O desempenho da direita no primeiro turno das eleições de 2026 impressionou, mas não chegou a consolidar a impressão de que a disputa está resolvida — nem de que Jair Bolsonaro será indultado e os golpistas, anistiados. A avaliação é da jornalista Dora Kramer, em coluna publicada na Folha de S.Paulo.

Historicamente, não há registro de virada do segundo colocado sobre o primeiro de um turno a outro. É fato, porém, que nunca a distância entre os dois foi tão estreita: foram menos de dois pontos percentuais de diferença.

A dianteira dá à oposição motivos para comemorar, mas o governo tem condições de inverter o quadro nas próximas três semanas, caso consiga disputar com competência os cerca de 8% dos votos dados aos demais candidatos.

Subestimação do adversário

O resultado deixa uma lição: a subestimação do adversário é péssima conselheira. O alerta valeu para o presidente Lula (PT), que desde o início menosprezou a oponente, e vale agora para Flávio Bolsonaro (PL), que será imprudente se desdenhar da capacidade de reação de Lula, decorrente do susto do primeiro turno.

O choque de realidade ficou evidente na decepção estampada no semblante dos aliados e na aparente calma da manifestação do presidente logo após a confirmação do resultado. Lula mediu as palavras e procurou se ater aos limites da normalidade, numa estratégia para ganhar tempo e não se precipitar sobre o que fazer.

Trajetória de superação

O petista acostumou-se a colher vitórias ao longo da carreira, mas também a enfrentar adversidades e superar obstáculos. Nas piores horas, soube pisar no freio e redirecionar a rota: foi eleito depois de três derrotas, reeleito no meio da tempestade do mensalão e voltou à Presidência depois de parecer que a prisão na Lava Jato seria o fim de sua trajetória política.

Erros que pesaram

Na avaliação da colunista, Lula ignorou orientações, deixou-se tomar pelo ressentimento, deu espaço à figura antipatizada de Janja, reduziu os eleitores a devedores de gratidão, ignorou a demanda por progresso e bem-estar e deu prioridade a temas alheios aos reais interesses do país — e, diante disso, preferiu o culto à própria personalidade.

A dúvida que permanece é se o presidente terá força e discernimento bastantes para dar conta do recado. A guinada é possível; o que se sabe, por enquanto, é que ela dependerá da capacidade de mudar a rota e de disputar melhor os votos que ficaram fora do primeiro turno.