Segundo reportagem do jornal americano The New York Times, publicada na segunda-feira (28), autoridades brasileiras vêm adotando um conjunto de medidas para tentar proteger o processo eleitoral de 2026 de uma possível interferência dos Estados Unidos. Entre as iniciativas estão o monitoramento de lobby estrangeiro e de campanhas de desinformação, o combate a acusações falsas de fraude eleitoral e a articulação com outras nações sobre medidas a serem tomadas após a divulgação do resultado.

Articulação diplomática

O governo brasileiro mantém conversas informais com missões diplomáticas de Canadá, Japão e Austrália, além de países da União Europeia, sobre uma reação conjunta depois da votação, de acordo com o jornal. Três diplomatas estrangeiros de alto escalão, ouvidos sob a condição de anonimato, afirmaram que essas nações devem defender rapidamente a integridade da eleição, independentemente do vencedor — embora exista receio de desagradar Washington.

Inteligência e regras do TSE

As agências de inteligência brasileiras passaram a tratar como prioridade o combate à manipulação estrangeira nas redes sociais, segundo a publicação. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por sua vez, estabeleceu novas regras para enfrentar a desinformação eleitoral e solicitou que empresas como Google e Meta apresentassem planos contra vídeos e publicações enganosas produzidos com inteligência artificial.

Em paralelo, autoridades iniciaram uma campanha para reforçar a confiança no sistema eleitoral entre população, diplomatas e observadores internacionais. A iniciativa inclui ações com influenciadores digitais e até um mascote em formato de urna eletrônica.

O jornal também cita o workshop organizado em agosto pelo TSE sobre o sistema eleitoral brasileiro, que reuniu mais de 80 diplomatas. Na ocasião, o presidente da corte, Kassio Nunes Marques, afirmou que o tribunal havia “aberto as portas ao mundo” e se dedicado a “desmantelar todos os argumentos” contra a confiabilidade das eleições.

Temor com Trump

O receio de interferência ganhou força diante da atuação do presidente americano, Donald Trump, em eleições de outros países da América Latina. Para o New York Times, candidatos de direita alinhados a Washington venceram disputas na região com endosso explícito do republicano.

O governo Trump rejeita as acusações de que tentaria interferir na eleição brasileira. Autoridades ouvidas pelo jornal avaliaram, no entanto, que uma eventual ajuda americana a Flávio Bolsonaro poderia ocorrer com novas medidas destinadas a prejudicar a imagem de Lula.

No ano passado, Trump impôs sanções contra autoridades brasileiras e determinou a aplicação de tarifas de 50% ao país, entre as mais altas do mundo.

Para a reportagem, foram entrevistados mais de uma dezena de funcionários do governo e do setor eleitoral brasileiros, policiais, agentes de inteligência e diplomatas estrangeiros.