Formulada em tom de provocação, a pergunta “feminismo não, feminicídio, pode ser?” funciona menos como dúvida e mais como espelho. Ela é cínica justamente porque expõe uma inversão moral que atravessa o debate público: a reivindicação de direitos pelas mulheres provoca indignação, enquanto a violência contra elas ainda encontra, no mínimo, tolerância.

O descompasso é evidente. Quando mulheres se organizam para exigir igualdade, segurança e autonomia, parte da reação social trata a pauta como exagero, ideologia ou ameaça. Já quando mulheres são mortas por serem mulheres — situação que deu origem ao conceito de feminicídio —, o escândalo tende a se diluir mais rápido, como se a morte fosse fatalidade e não a ponta extrema de uma cadeia de violência.

Direitos vistos como ameaça, violência vista como destino

A inversão revela uma hierarquia implícita de valores. Reivindicar direitos é lido, por esse raciocínio, como transgressão — algo que “não pode ser”. Matar, na prática, é tratado como algo que “pode ser”, já que não suscita o mesmo nível de rejeição.

O cinismo da formulação está em apresentar como simétricas duas situações que não são. De um lado, um movimento social que reivindica direitos garantidos em lei; de outro, a violência letal, que o ordenamento jurídico brasileiro tipifica como crime.

Há, ainda, um efeito retórico: ao colocar “feminismo” e “feminicídio” na mesma frase, a pergunta sugere que os dois termos se equivalem como fenômenos sociais, quando representam polos opostos — um reivindica direitos, o outro nomeia a violação extrema desses mesmos direitos.

A pergunta como espelho

Se a pergunta é cínica, também é útil: obriga a explicitar o que, em muitos discursos, permanece implícito. Quem se indigna com a palavra “feminismo”, mas reage com indiferença ao feminicídio, revela mais sobre a própria escala de valores do que sobre o movimento que critica.

A reivindicação de direitos, por definição, não retira direitos de ninguém. A violência contra as mulheres, sim — chega a retirar a própria vida. Colocar os dois fatos na mesma balança e condenar o primeiro com mais veemência do que o segundo é o gesto que a pergunta expõe.

A resposta, portanto, não é complicada: feminicídio não “pode ser”. A indignação social, quando existe, deveria ser proporcional à gravidade do fato — não à audácia de quem pede para viver sem violência.