Um fóssil de 309 milhões de anos, guardado nas coleções do Museu Field, em Chicago, deu origem à descrição de uma nova espécie de anfíbio primitivo que viveu muito antes dos dinossauros. Batizada de Jeanerpeton mazonensis, a espécie foi identificada por duas estudantes que notaram diferenças anatômicas em um exemplar antigo e escolheram um nome em homenagem às suas mães.
Redescoberta de um exemplar antigo
O material foi encontrado em 1965 pelo colecionador Ken Kietzke e depois incorporado ao acervo do Museu Field. Na época, recebeu a classificação de Amphibamus grandiceps, espécie já conhecida na região. Uma nova análise, porém, revelou características incompatíveis com essa identificação, indicando que se tratava de outro animal.
As estudantes Allison Sefcovic e Payton Kohlberg participaram do programa Women in Science, iniciativa do museu voltada à formação científica, e desenvolveram o trabalho no laboratório de Arjan Mann, com colaboração do pesquisador Calvin So.
Diferenças no crânio e na coluna
As marcações distintivas aparecem no crânio e na coluna vertebral. O novo animal tinha a região anterior da cabeça mais estreita e 22 vértebras antes da região sacral, enquanto Amphibamus grandiceps possuía 20. O conjunto de características justificou a criação de um gênero próprio.
A preservação excepcional também permitiu identificar estruturas raramente vistas em fósseis tão antigos: impressões dos olhos, pequenas escamas dorsais e ossos delicados da região abdominal.
Como Mazon Creek preservou os detalhes
Durante o Carbonífero, a região onde hoje fica Chicago abrigava um ambiente quente, com pântanos, rios e vegetação abundante. A área funcionava como um grande delta fluvial, e os sedimentos transportados pelas águas cobriam rapidamente organismos mortos, reduzindo a exposição à decomposição e à destruição.
Em determinadas condições químicas, minerais formavam concreções ao redor dos restos, preservando estruturas que normalmente desapareceriam. Isso explica os contornos corporais e as impressões de tecidos registrados nos sedimentos. A preservação não significa que os órgãos permaneceram intactos, mas que suas formas foram registradas, permitindo comparações com precisão incomum para depósitos tão antigos.
Confirmação científica
O estudo foi publicado em 24 de setembro de 2026 no Journal of Vertebrate Paleontology, assinado por Allison J. Sefcovic, Payton J. Kohlberg, Calvin So e Arjan Mann, integrantes da equipe de pesquisa do Museu Field especializada em vertebrados primitivos. Os pesquisadores reexaminaram o exemplar FMNH PR 558, com foco no crínio e no esqueleto axial, e a comparação com outros anfibamiformes apontou uma combinação anatômica distinta, suficiente para estabelecer um novo gênero e espécie.
Pertencente aos anfibamiformes, grupo de pequenos tetrápodes ligado aos debates sobre a origem evolutiva dos anfíbios modernos, o animal tinha características que lembram salamandras, mas corpo relativamente robusto e proporções diferentes das espécies atuais. As semelhanças com sapos e salamandras não indicam ancestralidade direta, mas ajudam a investigar quando determinadas estruturas anatômicas surgiram e como se diversificaram entre os primeiros vertebrados terrestres.
Nome em homenagem às mães
O nome escolhido tornou a pesquisa especial: as mães das duas estudantes se chamam Jean, inspiração para Jeanerpeton, expressão que pode ser traduzida como “rastejador de Jean”. Já mazonensis homenageia Mazon Creek, em Illinois, local do achado. A descoberta amplia o conhecimento sobre os primeiros anfíbios e reforça a importância de reexaminar coleções de museus, onde outras espécies desconhecidas podem permanecer classificadas incorretamente.