A Polícia Federal apura se o ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) Paulo Maurício Fortunato teria recebido US$ 180 mil, cerca de R$ 900 mil em valores atuais, do advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

Willer e Flávio respondem a inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, por suspeita de lavagem de dinheiro. Fortunato, por sua vez, foi indiciado em junho do ano passado no inquérito da chamada “Abin paralela”, que investiga o uso da agência no governo Jair Bolsonaro (2019-2022) para monitorar ilegalmente adversários do então presidente.

Fortunato dirigiu as operações da Abin na gestão de Alexandre Ramagem (PL-RJ) e, no início do governo Lula (PT), ocupou a Secretaria de Planejamento e Gestão da agência, terceiro cargo da hierarquia.

Anotação no celular

A suspeita surgiu a partir do exame do celular apreendido de Willer, que também é investigado por fraudes em aposentadorias e pensões do INSS. Em uma anotação armazenada na nuvem do aparelho, a PF encontrou o nome de Fortunato associado à data “agosto/21” e ao valor de US$ 180 mil, junto aos termos “corregedoria”, “diretor de operações” e “oficial de inteligência”.

No pedido de abertura do inquérito, a PF relaciona o valor à busca e apreensão realizada contra Fortunato em outubro de 2023, quando foram apreendidos US$ 171,8 mil em espécie em sua casa.

“O montante chama a atenção por sua proximidade com o valor de US$ 180 mil registrado nas anotações de Willer”, afirma a PF no documento. Segundo a corporação, embora a semelhança dos valores não prove, isoladamente, a ligação entre os fatos, a menção expressa ao servidor justifica o aprofundamento das apurações.

Defesas negam

Em nota, a assessoria de Willer Tomaz informou que ele foi procurado em 2024 para defender Fortunato, mas recusou a causa e não o conhece. “Não se trata de pagamento, recebimento, promessa ou transação de qualquer natureza”, diz o texto. Segundo a defesa, a anotação, feita em fevereiro de 2024, registra apenas o resumo de uma consulta não aceita, com o histórico funcional do interessado e o procedimento de corregedoria em curso. “Willer Tomaz jamais pagou, recebeu ou intermediou qualquer valor a Paulo Maurício Fortunato”, afirmou.

A defesa de Fortunato, por meio do advogado Oscar Luis de Morais, afirmou que ele jamais teve relação pessoal ou profissional com Willer e que tampouco conhece Flávio Bolsonaro.

Em outubro de 2023, Moraes determinou o afastamento de Fortunato do cargo, na mesma operação em que o dinheiro foi apreendido. Em junho, após parecer da PGR (Procuradoria-Geral da República), o inquérito da Abin Paralela foi enviado ao STF para a primeira instância.

Procurado por e-mail pela assessoria de campanha, Flávio Bolsonaro não se manifestou até o fechamento da reportagem.

O inquérito sobre Willer é desdobramento da apuração sobre o setor de bets e trata de movimentações financeiras suspeitas do advogado. Com o surgimento do nome de Flávio, o caso foi remetido ao Supremo. Além dos dois, também são alvos de investigação o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e Ramagem.