A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) divulgou nesta quarta-feira (21) uma mensagem ao povo brasileiro que começa clamando por proteção ao meio ambiente e aos direitos humanos e termina pedindo que Nossa Senhora Aparecida interceda pelo país. O texto, publicado às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, defende a Constituição e a preservação do Estado Democrático de Direito.

Sem citações a candidatos

Como nas mensagens anteriores da entidade, o documento não menciona candidatos ou partidos. A manifestação, porém, ocorre semanas depois de o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, acusar integrantes da CNBB de colaborar com o PT na disseminação de uma notícia falsa envolvendo justamente Nossa Senhora Aparecida — a de que o senador recuperaria um projeto de lei que a destituiria do posto de padroeira do Brasil.

O projeto citado nas publicações foi apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, que 12 anos depois viraria assessor da Presidência de Jair Bolsonaro (PL). A proposta previa alterar a legislação do feriado de 12 de outubro, substituindo a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Arquivada em 2008, a medida não prosperou.

Não há evidência sólida de que Flávio planejasse algo semelhante. A desconfiança de que o filho evangélico do católico Jair adotaria viés teocrático ganhou força após a retomada de declaração de agosto, quando afirmou que, se eleito, um de seus primeiros atos seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Caso vença Lula neste domingo (25), será o primeiro presidente pentecostal do país.

Compromissos esperados dos eleitos

Inspirada no versículo bíblico “buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça”, a mensagem enumera compromissos que os bispos esperam dos eleitos, como garantia de trabalho digno, alimentação, moradia, saúde, educação e segurança, além de proteção ambiental e defesa dos direitos humanos.

Assinado pelo conselho permanente da entidade, o texto reafirma a importância da Constituição e do “respeito aos resultados legítimos das urnas, expressão da liberdade de escolher os que governam”. Passado o primeiro turno, Flávio chegou a dizer que mudaria a Carta Magna — depois afirmou que planeja usar a maioria de direita no Congresso para propor, via PEC, reformar o STF, reduzir a maioridade penal, instituir a castração química para estupradores e acabar com a reeleição.

O documento incentiva a participação consciente dos eleitores e classifica como inadmissível “ameaçar ou pressionar eleitores, bem como negociar votos”. Os bispos destacam ainda a responsabilidade dos cidadãos para além da votação: fiscalizar os governantes, reivindicar direitos e exercer a crítica responsável. Para isso, segundo o texto, são necessárias informação confiável, liberdade de expressão e proteção a quem denuncia injustiças.

“Atentos aos pobres, aos ameaçados e aos que trabalham pela justiça, continuemos responsáveis uns pelos outros e pelo nosso país”, diz a mensagem, que termina com um apelo à superação da indiferença e à construção de uma convivência “fundada na verdade, na fraternidade e na paz”, sob a intercessão de Aparecida.

Embate com o senador

A dias do primeiro turno, Flávio afirmou que o PT teria conseguido disseminar a notícia falsa sobre a padroeira “com a ajuda de gente dentro da CNBB”. Presidida por dom Jaime Spengler, a entidade reagiu no dia seguinte, negando ter autorizado a divulgação de qualquer notícia falsa. Disse ainda que não integra estruturas político-partidárias e que manifestações eleitorais decorrem de sua missão pastoral. “A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou.

A uma semana do primeiro turno, durante agenda em São Paulo, Flávio chegou a agradecer publicamente à CNBB pela manifestação.