Com uma longa carreira no mundo do samba, Paulo César Feital, de 75 anos, não disfarça o descontentamento ao falar sobre a polêmica envolvendo a escolha do samba-enredo da Unidos de Vila Isabel para o Carnaval 2026. O caso virou assunto quente no meio carnavalesco em um momento considerado inoportuno.

Tudo começou quando a direção da escola anunciou a junção do samba de Feital — composto em parceria com Gustavinho Oliveira, Thales Nunes, Danilo Garcia, Júlio Alves, Marcelo Martins, Gabriel Simões e Rafael Tinguinha — com o samba 13, assinado por Evandro Bocão, André Diniz e Martinho da Vila, presidente de honra da agremiação. Dias depois, porém, a diretoria recuou e definiu que apenas a obra do grupo de Martinho seria a vencedora.

Feital, bicampeão do Grupo Especial com Mocidade (2017) e Viradouro (2020), afirma aceitar a decisão final, mas critica a forma como o processo foi conduzido.

Desilusão dos parceiros

Questionado sobre o desfecho, o compositor diz respeitar a diretoria, mas lamenta o impacto sobre os jovens parceiros. “Tenho uma parceria de jovens. São meninos. O mais velho deve ter 35, 36 anos. E todos são Vila Isabel, doentes mesmo. Essa garotada chorou muito, sentiu muita tristeza. Não posso negar a desilusão”, declarou.

Ele conta que celebrou o anúncio da junção, especialmente pelos companheiros mais novos, e que ninguém aguardava a reviravolta que veio dois dias depois, desfazendo a união e determinando a prevalência de um único samba.

Falta de comunicação

Segundo Feital, soube que a decisão saiu de uma reunião da diretoria realizada cerca de dois dias após o resultado. Ele afirma desconhecer o posicionamento da parceria de Martinho, mas relata que o presidente de honra não aceitava a junção. “Martinho é uma figura forte dentro da escola, compositor maravilhoso e que respeito muito. Mas, sobre não me chamarem, acho que há um erro aí. Deveriam ter chamado a parceria para comunicar”, disse.

O compositor garante que ninguém da direção o procurou até hoje e que, por não ter participado da reunião, não sabe o que foi discutido ou decidido nos bastidores.

Tristeza, não revolta

Sobre o sentimento predominante, Feital afasta a ideia de revolta. “Revolta é sinônimo de desilusão, de ódio, de raiva. E não foi isso. O que houve foi uma grande desilusão de jovens apaixonados por uma escola. Não lembro de uma junção e uma disjunção de samba-enredo. O que ficou dentro de mim foi uma grande tristeza, principalmente pelo pranto dos meus parceiros”, afirmou.

Futuro da disputa

Para o veterano, o episódio deve ficar apenas na memória dos que passaram por ele. “Isso vai perdurar um curto tempo e depois há de ser apagado. A Vila é uma instituição enorme. O Morro dos Macacos tem que ser plenamente respeitado. Com o tempo, isso vai sendo diluído e volta ao normal. O tempo me ensinou a aguardar. Na frente sempre vem a resolução dos problemas”, avaliou.

Quanto à reação da comunidade, Feital acredita que a insatisfação dos torcedores veio mais da maneira como a decisão foi tomada do que do resultado em si. Ele lembra que, na quadra, no dia do anúncio dos dois sambas, o público recebeu bem a obra da sua parceria. Depois disso, diz ter tido pouco contato presencial, mas acompanhou publicações de fiéis torcedores contrários à resolução da diretoria.