O escritor francês Édouard Louis publicou artigo de opinião no qual declara temer uma possível vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial do Brasil. Segundo o autor, o senador pretende destruir tudo o que faz do país ‘um dos lugares mais maravilhosos do mundo’.

Louis é autor de obras como ‘O Fim de Eddy’, ‘História da Violência’ e ‘Mudar: Método’, todas publicadas no Brasil pela editora Todavia.

Reconhecimento de limites

No texto, o escritor reconhece que esteve poucas vezes no Brasil e passou apenas algumas semanas no país. Ele afirma não pretender compreender toda a complexidade brasileira nem conhecer em detalhes a história, a geografia e as culturas que compõem a nação. Mesmo com essas limitações, sustenta que tudo o que testemunhou nas viagens — a beleza, a força e a singularidade do país — seria alvo de destruição por Bolsonaro.

Amazônia e cultura popular

Entre os pontos destacados, Louis cita a Amazônia, descrita por ele como floresta ‘sublime e misteriosa’, essencial para a sobrevivência da humanidade e responsável pela respirabilidade do oxigênio do planeta. Segundo o escritor, Flávio Bolsonaro, assim como seu pai fez antes, quer devastar a floresta para vendê-la ao capitalismo mais destruidor.

O autor destaca ainda a alegria das rodas de samba, em que homens e mulheres, brancos e negros, cantam em uma só voz sonhando com um mundo melhor. Para ele, Bolsonaro tentará colocar essas pessoas umas contra as outras por meio de políticas racistas, da perseguição às populações negras das favelas e do poder concedido à polícia, que, no mundo inteiro, teria como alvo prioritário as pessoas não brancas.

Liberdades e direitos

Louis menciona a liberdade com que diz ter visto casais do mesmo sexo se beijando na praia, nos bares do Rio de Janeiro, nas ruas de São Paulo e em Paraty, durante a Flip. Essa liberdade, presente em tão poucos países, seria apagada por Flávio Bolsonaro, segundo o escritor, com o fortalecimento do fundamentalismo religioso e a oposição aos direitos de pessoas transgênero, gays e lésbicas — postura que ele atribui ao senador nos últimos anos no Senado.

O escritor cita também a cultura da alegria, da amizade e da celebração popular, contra a qual a família Bolsonaro teria declarado guerra abertamente, ao atacar o Carnaval e os desfiles de rua, vistos como ameaçadores à ordem e à ‘família tradicional’.

Música e literatura

Na avaliação de Louis, o Brasil é também sua cultura musical, com brasileiros cantando Gilberto Gil e Caetano Veloso. Ele lembra que, em 2022, durante a Copa do Mundo de futebol, apoiadores de Jair Bolsonaro perseguiram Gil em público, ameaçando-o e insultando-o — os mesmos apoiadores que, segundo ele, hoje defendem Flávio Bolsonaro, defensor do legado político do pai.

A literatura também é citada: Machado de Assis, Clarice Lispector e Victor Heringer, autores que fizeram a cultura brasileira brilhar no mundo e que vieram das margens ou pertenciam a parcelas da população odiadas pela extrema direita conservadora. Louis lembra que Machado de Assis era descendente de escravizados, Heringer era homossexual e Lispector era mulher.

Críticas sociais e econômicas

No fim do artigo, o escritor afirma que Bolsonaro, ao cortar os gastos do Estado e, em consequência, os serviços públicos, tornaria a vida dos pobres mais difícil e os reduziria ao silêncio. Segundo Louis, o político, autor de declarações machistas e misóginas e exaltador da família tradicional, dificultaria a emancipação das mulheres.