As eleições de 2026 confirmaram, mais uma vez, que as urnas nem sempre reproduzem fielmente os retratos traçados pelas pesquisas ao longo da campanha. Os levantamentos sucessivos indicavam um empate apertado, mas a votação real alargou um pouco essa diferença: Flávio Bolsonaro (PL) assumiu a dianteira sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em um quadro geral de prevalência da direita nos estados, cenário que inclui o Senado.

Apesar das oscilações de última hora do eleitorado — cuja vontade nem sempre acompanha a estatística —, prevaleceu o favoritismo dos finalistas apontado pelas enquetes. As fotos das intenções de voto, contudo, também expuseram a fragilidade eleitoral dos demais oponentes, que não conseguiram furar a reserva de mercado dos dois principais nomes da disputa.

Primeiro turno atípico

A etapa inicial do pleito foi atípica. Marcaram o período a ausência de conteúdo substantivo, a ingerência acentuada do Judiciário, escândalos que atingiram todos os campos, o desencanto do eleitorado e a concentração de votos nos dois principais candidatos, chefes das respectivas bolhas políticas.

Ignorados pelos dois finalistas até aqui, os eleitores independentes agora se transformam em peça decisiva do jogo. Eles tanto podem migrar para qualquer um dos lados quanto formar fileiras na abstenção ou engrossar o campo dos sufrágios inválidos, nulos e brancos.

Desafio de falar ao eleitorado flutuante

Os dois candidatos estarão obrigados a se dirigir a esse público, o que pode confirmar ou desmentir a máxima de que o segundo turno é sempre uma outra eleição, diferente da anterior. Se quiserem ampliar a distância entre si e produzir um resultado que confira maior legitimidade política ao vencedor, precisarão se mostrar à altura do desafio.

A questão central é saber se serão capazes de romper a barreira das afeições e aversões. Essa resposta definirá não apenas o eleito, mas também quem se mostrará mais apto a conduzir o país na travessia que se anuncia turbulenta na economia e na política, sob a égide da disfuncionalidade institucional.

São três semanas — a campanha do segundo turno vai até 25 de outubro — para que os adversários remodelem seus discursos e os adaptem de modo convincente ao gosto da freguesia em disputa. É pouco tempo. Sob o prisma do copo meio cheio, podem conseguir. A metade vazia, pela qual ambos optaram por transitar até aqui, não recomenda otimismo.

Agenda para a etapa decisiva

O caminho apontado como desejável seria preencher os espaços com o compromisso com boa governança, a preservação da civilidade em ambiente de discórdia saudável e a consciência de que o país é de todos — e não se limita à contabilidade de perdas e ganhos de uma eleição.