As democracias liberais vivem hoje um desafio que, embora não seja totalmente inédito, alcança dimensões sem precedentes. Sistemas democráticos antigos ou recentemente consolidados são testados pela ascensão eleitoral de forças de extrema direita, que ameaçam as instituições que os sustentam — sobretudo aquelas que limitam o poder dos líderes eleitos e asseguram a liberdade das oposições. No passado, o fascismo e o nazismo representaram a versão totalitária desse projeto antidemocrático, em um mundo em que o território das democracias era bem menor.
Atualmente, o assédio extremista se manifesta em quase todos os países onde o regime liberal representativo enraizou-se — dos Estados Unidos à Índia, da Alemanha à Argentina, da França à Turquia, da Áustria ao Brasil. Em parte desses países, a ultradireita figura como força relevante de oposição, enfraquecendo os partidos conservadores tradicionais. Em outros, já chegou ao governo por meio de vitórias em eleições competitivas.
Como se trata de um desastre em andamento, ainda não é possível medir com precisão o efeito da chegada do extremismo de direita ao poder sobre a continuidade do regime democrático. Sabe-se, porém, qual é seu propósito declarado: destruí-lo, concentrando poder no Executivo e submetendo os contrapontos capazes de limitá-lo, tanto a partir do Estado — Judiciário, Legislativo, agências públicas e burocracia — quanto da sociedade — partidos, meios de comunicação, universidades e organizações civis.
Os exemplos disponíveis apontam para dois caminhos. No primeiro, o extremismo se impõe e enfraquece de forma significativa os freios e contrapesos ao exercício arbitrário do poder, até desmontar os instrumentos que garantem eleições efetivamente livres e competitivas. Os casos ainda são poucos: na Rússia, Putin se perpetua no comando; na Hungria, Viktor Orbán permaneceu 16 anos como primeiro-ministro até ser derrotado no último pleito.
O segundo caminho é uma adaptação ao regime democrático, com convivência entre ameaças às liberdades e políticas de viés reacionário. É o que parece ocorrer na Itália e na Polônia, onde governos extremistas se alternaram com gestões de direita moderada.
Em artigo publicado na segunda-feira (19) em O Estado de S. Paulo, o cientista político Oliver Stuenkel destaca a diversidade dos governos de extrema direita na América Latina. Além de adotarem políticas econômicas distintas, esses governos variam na intensidade do assédio às instituições liberal-democráticas.
Não se sabe ainda o que determina a escolha de um ou outro caminho. Em ambos, porém, o dano institucional é considerável. O Brasil viveu essa experiência no governo de Jair Bolsonaro. A democracia prevaleceu sobre a tentativa de destruí-la, mas as instituições de controle, como o STF, pagaram um preço elevado — assim como os órgãos responsáveis pela segurança pública, pelo meio ambiente e pela proteção dos direitos da cidadania.
Diante da incerteza, devolver o governo do país à extrema direita é como dançar à beira do abismo. O risco se agrava quando o candidato desse grupo é incapaz de dizer a que veio, tem os dois pés no submundo do crime e desrespeita as regras mínimas de um debate civilizado — e, com maior razão, as da política democrática.
