Estratégias distintas na reta final

Na reta final para o primeiro turno das eleições de 2026, o presidente Lula (PT) concentra esforços em convencer os eleitores idosos a irem às urnas, em uma tentativa de reduzir a abstenção. Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL) aposta no debate da TV Globo desta quinta-feira (30) para conquistar indecisos e simpatizantes de outros candidatos da direita.

A principal preocupação do comando petista envolve as pessoas com 70 anos ou mais, dispensadas da obrigação de votar. Para a equipe do presidente, esse público pode ser decisivo, já que apoia Lula em proporção maior do que o restante do eleitorado, mas também falta mais às urnas.

Na campanha de Flávio, a leitura é de que a ausência nas urnas prejudica mais o adversário, porque atinge idosos e pessoas de baixa renda — grupos que enfrentam mais obstáculos para chegar aos locais de votação e nos quais o petista aparece na frente.

Vantagem entre os mais velhos

Pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (28) aponta que a diferença entre os candidatos cresce no recorte etário: entre quem tem 60 anos ou mais, Lula registra 40% das intenções de voto contra 32% de Flávio. No conjunto do eleitorado, o placar é de 39% a 34%. A margem de erro é de 2 pontos no total e de 5 pontos na faixa de idade.

Levantamentos do Datafolha somados — um de agosto e outro de setembro — também indicavam preferência do eleitorado com mais de 70 anos pelo petista.

O histórico de 2022 ajuda a explicar o temor: naquele ano, 20,3% dos eleitores ficaram fora das urnas. Entre os de 70 a 74 anos, a taxa chegou a 39% e subiu nas faixas seguintes. Na prática, o candidato mais forte entre os mais velhos perdeu votos pelo menor comparecimento desse público.

Apelo pessoal e prova de vida

Lula passou a usar discursos para incentivar esse eleitorado a sair de casa no domingo (4). Em Fortaleza, na terça-feira (29), declarou: “Se não quer votar por você, vote pelo seu neto, vote pelos seus filhos, vote pelo Brasil”.

Aliados contam ainda com um estímulo extra: desde uma portaria de 2022, o voto vale como comprovação de vida junto ao INSS, o que pode motivar os maiores de 70 anos.

Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo de Lula, avalia que os idosos viveram o governo Bolsonaro e que essa memória favorece o petista. O desafio, segundo ele, é o comparecimento. “Principalmente com 70 anos ou mais, [o eleitor] não tem obrigação de votar e já está meio cansado”, disse. Para Gabrielli, a disputa vai ao segundo turno — embora, segundo ele, o próprio presidente afirme acreditar na vitória já no primeiro.

A rede Porta Vozes, estrutura de mobilização da campanha, reúne mais de 40 mil integrantes com mais de 60 anos, segundo o comitê. O grupo atua principalmente nas redes sociais.

Periferias e interior no alvo

Outra frente petista é a periferia das grandes cidades, com eventos programados até a véspera da eleição. O comparecimento expressivo de apoiadores nos atos de Belém, Salvador e Recife animou o ambiente da campanha.

No interior, a mobilização ficará a cargo de candidatos ao governo dos estados apontados como peças-chave: Jerônimo Rodrigues (PT-BA), Rafael Fonteles (PT-PI) e Elmano de Freitas (PT-CE).

No campo adversário, integrantes da campanha petista avaliam que Flávio chega à reta final em posição defensiva, após notícia falsa sobre suposta retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora de Aparecida e reportagem que o associou a garotas de programa e ao recebimento de um relógio Rolex.