Comentários do tipo ‘não dá para mudar nada se as próprias mulheres não votam em mulheres’ tornaram-se presença constante em debates sobre representação feminina na política. Uma análise publicada às vésperas do primeiro turno das eleições — que definirão deputados estaduais e federais, dois terços do Senado, governadores e o novo presidente — sustenta que a explicação para a sub-representação feminina é bem mais complexa do que sugere a frase.
Os números ajudam a dimensionar o problema: as mulheres são mais da metade do eleitorado, mas ocupam menos de um quinto das cadeiras na Câmara e no Senado. O resultado coloca o Brasil entre os Parlamentos mais desiguais em gênero da América Latina.
Poucas candidatas competitivas
Neste pleito, chamou a atenção a ausência de mulheres em chapas competitivas à Presidência. Historicamente escaladas como candidatas a vice na tentativa de atrair o voto feminino, neste ano elas não chegaram nem a essa posição.
O primeiro obstáculo é evidente: não se elege quem não concorre. Além disso, em disputas majoritárias o gênero raramente decide o voto — uma eleitora de esquerda dificilmente escolheria uma candidata de direita apenas por ser mulher. Sem uma opção feminina competitiva no espectro político desejado, votar em mulher simplesmente não é possível.
Sem dinheiro, sem competitividade
Nas eleições proporcionais, haveria espaço para a escolha de candidatas: em 2026, elas são 35% do total de postulantes, proporção inferior à participação feminina na população. Concorrer, porém, é diferente de ser competitiva — e, no sistema eleitoral brasileiro, competitividade exige dinheiro.
Apesar da regra que destina 30% do financiamento partidário a mulheres e pessoas negras, a prática registra desvios e brechas que esvaziam o dispositivo. Nos últimos anos, partidos que descumpriram as cotas de financiamento e candidaturas receberam anistia; foram revelados casos de mulheres usadas como ‘candidatas laranja’ para repassar recursos a homens; e uma aliança improvável entre PT e PL pediu ao Tribunal Superior Eleitoral que mudasse a regra sobre o que conta como gasto destinável às candidatas.
Lista aberta e profecia autorrealizável
No modelo brasileiro de lista aberta, candidatos do mesmo partido disputam entre si os votos do eleitorado, e o apoio da legenda pesa para tornar uma candidatura viável. Minoritárias nas chapas e nas direções partidárias, as mulheres têm menos espaço para pleitear recursos e passam a ser vistas como candidatas com pouca chance de vitória. Como o eleitor — de qualquer sexo — tende a votar em quem vai ganhar, a desigualdade se transforma em profecia autorrealizável.
Há exceções: em 2022, duas mulheres figuraram entre os dez mais votados do país, Carla Zambelli (PL-SP), que depois renunciou ao mandato, e Tabata Amaral (PSB-SP). A votação expressiva de uma candidata, contudo, não garante a eleição de outras. A Câmara ainda tem apenas 17,7% de mulheres — percentual abaixo da média de todas as regiões globais, com exceção apenas do Norte da África.
Experiências de outros países
Países que adotaram listas fechadas com alternância de gênero, como a Argentina, ou cotas de vagas para mulheres, como Ruanda, atingiram números maiores de representação feminina em seus Parlamentos. O voto distrital, modelo que já chegou a ser discutido no Brasil, tende a piorar o quadro.
A análise conclui que pedir o voto em candidatas segue válido, mas não resolve o problema enquanto o sistema eleitoral permanecer inalterado. Reconhece, ainda, que o voto não precisa ser guiado apenas pelo gênero do candidato — critério que, por coerência, vale igualmente para os eleitores homens.
