Para o escritor uruguaio Eduardo Galeano, cultura não se mede por diplomas, estantes cheias de livros ou pelo volume de informações acumuladas. Em uma de suas reflexões mais conhecidas, ele afirmou: “Conheço pessoas profundamente cultas que não sabem ler ou escrever, porque culta é aquela que é capaz de ouvir a outra”.
Cultura além da formação acadêmica
Galeano sustentava que a educação formal, sozinha, não determina a capacidade de compreender a realidade. Segundo o autor, havia pessoas sem escolaridade com uma leitura profunda do mundo, enquanto outras, mesmo doutoradas, demonstravam visão limitada. Para ele, acumular informações não é o mesmo que desenvolver compreensão — chegou a comparar o armazenamento de dados ao funcionamento de um computador.
A diferença, na sua perspectiva, estava na forma como cada pessoa se relaciona com o conhecimento. Escutar exige abertura para reconhecer experiências distintas das próprias, rever certezas e compreender realidades que não fazem parte da vida individual.
Em outra passagem difundida entre leitores do autor, Galeano resumiu sua crítica à sociedade contemporânea: “Vivemos em um mundo onde o enterro é mais importante que a morte, o casamento mais que o amor e o corpo mais que o intelecto. Vivemos na cultura da embalagem, que despreza o conteúdo”.
Os pilares do pensamento de Galeano
Da reflexão do escritor emergem três atitudes que ele considerava fundamentais:
Saber ouvir: dar atenção genuína ao que o outro diz, sem desconsiderar suas experiências ou opiniões;
Respeitar perspectivas diferentes: reconhecer que ninguém detém todas as respostas e que outras visões podem ampliar o conhecimento;
Compreender a natureza: entender que os seres humanos fazem parte de um mundo que merece atenção, cuidado e respeito.
Crítica ao modelo tradicional de educação
O uruguaio também questionava sistemas de ensino que buscam impor uma única visão de mundo ou uma escala rígida de valores. Para ele, ensinar não deveria significar transmitir regras de quem supostamente sabe para quem ainda não sabe. Em vez disso, defendia o diálogo em lugar da imposição, o respeito ao conhecimento que cada pessoa carrega e o questionamento constante das certezas — uma educação baseada na troca de experiências, e não na transmissão unilateral de informações.
Exílio, literatura e memória latino-americana
Nascido em Montevidéu em 1940, Galeano construiu carreira no jornalismo, na literatura e na análise da história política e social da América Latina. O golpe de Estado uruguaio de 1973 forçou-o ao exílio, primeiro na Argentina e depois na Espanha. Ele voltou à cidade natal em 1985, com o fim da ditadura, e viveu ali até morrer, em 2015, aos 74 anos.
Entre suas obras mais conhecidas estão As Veias Abertas da América Latina, publicada em 1971, e a trilogia Memória do Fogo. Seus livros exploram desigualdades, memória histórica e as trajetórias de pessoas frequentemente deixadas à margem das narrativas oficiais.
Uma lição que segue atual
O pensamento de Galeano permanece provocador porque desafia a associação automática entre prestígio acadêmico e sabedoria. O acesso à educação pode ampliar oportunidades e conhecimentos, mas não garante, por si só, empatia, respeito ou disposição para compreender outras pessoas. A mensagem que deixou é simples: ser culto não é apenas falar sobre o mundo, mas estar disposto a escutar quem o enxerga de outra maneira.