O plano de economia pública apresentado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) tem chamado atenção no debate sobre os rumos das contas do país. Batizado de “tesouraço”, em referência direta à política de cortes profundos adotada pelo presidente da Argentina, Javier Milei, o pacote promete reduzir em R$ 200 bilhões o orçamento público.
Inspiração argentina
A inspiração no modelo argentino é explícita. Desde que assumiu o governo, Milei se tornou símbolo de uma agenda de enxugamento agressivo do Estado, marcada pelo uso da motosserra como metáfora dos cortes de gastos. A proposta de Flávio Bolsonaro busca transpor essa lógica para o cenário brasileiro, com um volume de corte que, se confirmado, representaria uma das maiores reduções de despesa já discutidas no Congresso.
Alerta de recessão
A reação do meio econômico, porém, não é unânime quanto aos efeitos da medida. Um economista ouvido sobre o tema avaliou que o corte de R$ 200 bilhões no orçamento tende a provocar recessão e a travar a economia. Segundo essa avaliação, a dimensão do ajuste, aplicada de forma abrupta, poderia retirar recursos da atividade produtiva e frear o crescimento em vez de estimulá-lo.
O que está em jogo
O debate se insere em um contexto mais amplo, no qual diferentes propostas de contenção de despesas circulam no Congresso Nacional e no governo. Defensores de cortes vigorosos argumentam que o tamanho do Estado brasileiro precisa ser reduzido para conter o endividamento. Críticos, por outro lado, sustentam que ajustes dessa magnitude, feitos de uma só vez, tendem a derrubar o consumo, afetar investimentos e gerar impacto negativo sobre o emprego e a renda.
O apelido de “tesouraço” resume a natureza da proposta: um corte amplo e direto, sem os cortes graduais que costumam ser defendidos por setores mais cautelosos. A comparação com a experiência argentina tende a dominar o discussion pública sobre o tema, já que o caso de Milei divide opiniões entre quem enxerga resultados positivos no ajuste fiscal daquele país e quem aponta custos sociais elevados.
Resta saber se a proposta de Flávio Bolsonaro avançará no Congresso e em que termos. O valor de R$ 200 bilhões, caso seja efetivamente perseguido, exigirá definições sobre quais despesas seriam atingidas — e essa será provavelmente a principal fonte de embate político nos próximos meses. O alerta de que o plano poderia provocar recessão e travar a economia, feito por economista, deve integrar o conjunto de argumentos dos que resistem à adoção do modelo de cortes inspirado na gestão do presidente argentino.