A advocacia brasileira vive um momento de transição tecnológica. Depois de ter atravessado a grande onda da digitalização dos processos judiciais, o setor jurídico encara agora um novo capítulo: a adoção da inteligência artificial. E, se a história recente servir de parâmetro, há motivos para acreditar que essa mudança também deverá trazer bons resultados para quem trabalha com o Direito no país.

O precedente do PJe

Para entender o tamanho do potencial da inteligência artificial na advocacia, vale relembrar o caminho percorrido até aqui. A criação do Processo Judicial Eletrônico, o PJe, representou uma verdadeira revolução na rotina dos advogados e do Judiciário.

Antes do sistema digital, a prática jurídica era marcada por deslocamentos constantes aos cartórios e tribunais. Era comum encontrar profissionais enfrentando longas filas de balcão para protocolar petições, peticionar em cartório ou simplesmente consultar o andamento de um processo físico. O papel era o centro de tudo: autos empilhados, carimbos, protocolos manuais e prazos controlados à mão faziam parte do dia a dia de escritórios de todos os portes.

O PJe mudou esse cenário. Com a virtualização dos processos, o advogado passou a protocolar petições de onde estivesse, acompanhar movimentações em tempo real e acessar os autos sem sair do escritório. A fila do balcão, símbolo de uma era, tornou-se coisa do passado para a maior parte das atividades. A digitalização reduziu custos operacionais, acelerou trâmites e liberou tempo para que o profissional se dedicasse ao que realmente importa: a estratégia jurídica e a relação com o cliente.

A inteligência artificial como nova fronteira

Se a transformação digital eliminou o atrito físico do exercício da advocacia, a inteligência artificial promete atacar outro gargalo: o volume de trabalho intelectual repetitivo. Ferramentas baseadas em IA já começam a auxiliar na análise de documentos, na pesquisa de jurisprudência, na organização de informações de processos e na elaboração de minutas, tarefas que antes consumiam horas de trabalho manual.

O paralelo com o PJe é revelador. Assim como a digitalização parecia distante e enfrentou resistência inicial, mas acabou se tornando indispensável, a inteligência artificial caminha pelo mesmo trajeto. A experiência acumulada pelo setor jurídico brasileiro na absorção de tecnologia sugere que a advocacia tende a se adaptar e a colher os frutos dessa nova onda.

O desafio agora é integrar essas ferramentas de forma responsável, com atenção à ética profissional e à supervisão humana, mas a direção é clara: depois de eliminar a fila do balcão, o próximo salto da advocacia brasileira passa pela inteligência artificial.