A campanha do senador Flávio Bolsonaro reacendeu o debate sobre o papel dos servidores públicos concursados no Brasil. Dani Marques, coordenadora da campanha, classificou os concursados como “obsoletos” e defendeu que a inteligência artificial ocupe, no futuro, o espaço hoje reservado aos servidores de carreira.
De “parasitas” a “obsoletos”
A declaração evoca um episódio marcante do recente histórico do debate sobre o serviço público no país. Durante a gestão de Jair Bolsonaro no Planalto, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a chamar os servidores de “parasitas”, em críticas públicas à estrutura do Estado brasileiro. Agora, com o termo “obsoletos”, a coordenadora da campanha de Flávio retoma o tom de confronto com as carreiras públicas, sob uma nova roupagem: a da tecnologia.
A tese defendida pelo grupo é de que boa parte das funções hoje exercidas por concursados poderia ser assumida por sistemas de inteligência artificial. A proposta, segundo a campanha, dependeria de articulação no Congresso Nacional para avançar, uma vez que mudanças nesse sentido exigiriam alterações na legislação que rege o serviço público.
Reação previsível do funcionalismo
Declarações desse tipo historicamente provocam reação imediata das entidades representativas dos servidores, que costumam rebater críticas com argumentos sobre a importância da estabilidade, da continuidade das políticas públicas e da experiência acumulada nas carreiras. O concurso público, garantido pela Constituição como regra geral para o ingresso no serviço público, é tratado pelas entidades como uma salvaguarda contra a troca de cargos por indicações políticas.
A proposta de substituir servidores por tecnologia também levanta questionamentos recorrentes entre especialistas em administração pública, que apontam desafios como a responsabilidade por decisões administrativas, a segurança de dados sensíveis e a capacidade real de sistemas automatizados lidarem com a complexidade das funções estatais.
Caminho no Congresso
Para sair do campo das declarações e se transformar em política concreta, a ideia enfrentaria um longo percurso legislativo. Qualquer reforma que afete o regime dos servidores concursados passa necessariamente pelo Congresso Nacional, onde o tema historically divide os parlamentares e mobiliza uma bancada atenta aos interesses do funcionalismo.
Ao colocar a inteligência artificial no centro de sua proposta para o Estado, a campanha de Flávio Bolsonaro busca se associar a um tema em alta no debate global sobre modernização da administração pública. O resultado dessa aposta, porém, dependerá da receptividade no Legislativo e da reação das categorias diretamente atingidas pelo discurso.