A lógica do voto útil
Publicado em 1997, o livro “Making Votes Count”, do cientista político Gary Cox, tornou-se a referência sobre como as regras eleitorais moldam o comportamento do eleitorado. A tese central é direta: o voto útil não é traição às convicções, e sim um cálculo. O eleitor abandona o candidato de sua preferência ao perceber que ele não tem chance de vencer e que insistir nele pode facilitar justamente a vitória de quem mais rejeita.
Para que esse cálculo ocorra, Cox aponta três condições necessárias: o eleitor precisa se importar com o resultado — e não votar apenas para expressar uma identidade —, saber quem é viável e quem não é, e dispor de informação compartilhada por todos, papel que, nas democracias modernas, cabe às pesquisas. Combinados os três ingredientes, a disputa converge para os dois nomes com chances reais e os demais encolhem. O autor chama o fenômeno de “deserção estratégica”.
Terceira via encolhe e voto migra para líderes
Segundo a análise de Felipe Nunes, as três últimas rodadas da Quaest em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e Distrito Federal mostram o mecanismo em funcionamento. Somadas, em cada estado, as intenções de voto de Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) — os quatro nomes que disputam o espaço fora da polarização —, e comparadas com a evolução da vantagem de quem lidera o primeiro turno nas rodadas de 8, 23 e 29 de setembro, a constatação é a mesma: a terceira via murcha e o voto migra para o candidato que já estava na frente.
Em quatro dos cinco estados, a queda da terceira via se converte em vantagem maior para quem já liderava. Em Minas Gerais, os dois crescem igualmente e a dianteira do presidente Lula (PT) fica em 4 pontos.
Pernambuco, Rio e São Paulo
Em Pernambuco, o bloco de candidatos fora da polarização recuou de 10%, em 8 de setembro, para 6% na medição mais recente. No mesmo período, Lula subiu de 51% para 58%, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) oscilou de 21% para 20%. A vantagem do presidente, que era de 30 pontos, foi a 38. O eleitor pernambucano que experimentou Cury em setembro voltou ao voto de origem.
No Rio de Janeiro, o movimento é o espelho. A terceira via caiu de 12% para 8%; Flávio Bolsonaro saiu de 34% para 38% e Lula oscilou de 32% para 31%. A dianteira do senador, que era de 2 pontos, chegou a 7.
Em São Paulo, o bloco foi de 15% para 13%, Flávio Bolsonaro subiu 5 pontos — de 31% para 36% — e Lula manteve os 30%. A liderança bolsonarista passou de 1 para 6 pontos.
