Entre as promessas de infraestrutura do candidato Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições de 2026 está a construção de uma ferrovia de passageiros com 1.400 quilômetros de extensão. Batizada de “Trem do Nordeste”, a malha conectaria sete capitais da região: Salvador (BA), Aracaju (SE), Maceió (AL), Recife (PE), João Pessoa (PB), Natal (RN) e Fortaleza (CE), com foco no deslocamento de passageiros e no turismo.
O ponto mais polêmico da proposta é a afirmação de que a obra não exigiria recursos da União, sendo bancada exclusivamente pela iniciativa privada. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, não há precedente de viabilidade financeira para um projeto desse tipo com esse modelo de financiamento, nem no Brasil nem no exterior.
O plano, porém, não apresenta elementos mínimos para uma avaliação técnica. Não há traçado esboçado ligando as cidades, estudo prévio de viabilidade, orçamento definido nem indicação da origem dos recursos. Questões como a desapropriação de áreas densamente ocupadas nas capitais — fator que altera de forma significativa custo, prazo e capacidade de atração de passageiros — também não são abordadas. A campanha de Flávio Bolsonaro foi questionada sobre esses pontos na segunda-feira (19), mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.
Quanto custaria a obra
Dados do setor ferroviário indicam que cada quilômetro de ferrovia custa hoje entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões, dependendo das características do empreendimento. Com base nesses valores, o trem prometido pelo senador teria custo mínimo estimado em R$ 28 bilhões, podendo alcançar R$ 42 bilhões.
Como referência, em junho de 2025 a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) divulgou investimento previsto de R$ 10,2 bilhões para os 363 quilômetros da Ferrovia de Integração Centro-Oeste, entre Mara Rosa (GO) e Água Boa (MT) — cerca de R$ 28 milhões por quilômetro.
Modelo sem subsídio é considerado inviável
A situação do projeto se complica ainda mais por se tratar de trem de passageiros, e não de carga. Segundo especialistas, experiências internacionais, inclusive na Europa — região intensamente coberta por trilhos —, mostram que empreendimentos desse tipo não se sustentam apenas com a venda de bilhetes. É necessário aporte público pesado na construção e subsídio estatal para manter tarifas acessíveis.
“A tarifa por si só não consegue sustentar todos os investimentos necessários em projetos assim. Toda equação de risco e retorno é importante para um projeto como esse. Isso é uma realidade não só do Brasil, mas do mundo inteiro”, afirma Isadora Cohen, sócia da ICO Consultoria e especialista em infraestrutura.
Um exemplo dessa dependência de recursos públicos está no governo de São Paulo, de Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado de Flávio e reeleito. A concessão do “trem intercidades”, que ligará a capital paulista a Campinas, foi leiloada em fevereiro de 2024 com aporte estadual previsto de R$ 8,98 bilhões, em um pacote de R$ 14,2 bilhões — o que representa cerca de 63% do total bancado pelo estado. Mesmo se tratando de um dos eixos mais densos do país, com fluxo diário intenso de passageiros, a participação privada não dispensou o aporte majoritário do poder público.
Cohen pondera que existem fontes alternativas de receita, como a venda de naming rights em estações, prática adotada em outros países. Ainda assim, avalia que seria muito desafiador um projeto se sustentar exclusivamente por tarifas. “Nas experiências que a gente tem, o benchmark é que, mesmo nessas situações, o transporte de passageiros é, sim, subsidiado”, diz.
Na União Europeia, os governos contratam serviços ferroviários para garantir rotas, horários e tarifas que não seriam mantidos apenas pela venda de passagens, compensando financeiramente as operadoras. Segundo relatório da Comissão Europeia publicado em julho de 2025, esses serviços representaram 58,7% do transporte ferroviário de passageiros do bloco em 2022.
Em agosto, Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, defendeu que o projeto poderia se viabilizar com capital de empresas, concessões e parcerias público-privadas, sem dependência direta do Orçamento da União. Flávio também mencionou a promessa em várias ocasiões. Em 25 de agosto, em Maceió, falou em construir “um trem que ligue as capitais do Nordeste para incentivar o turismo”. No dia seguinte, durante uma carreata em Arapiraca (AL), voltou a citar a proposta.
