A naturalização da violência raramente se anuncia de forma explícita. Ela avança aos poucos, até que a destruição do outro deixa de ser encarada como transgressão e passa a ser confundida com força, identidade e vitória. É nesse ponto que o limite entre o debate político legítimo e a agressão institucionalizada começa a se dissolver.

A força que destrói

No vocabulário político contemporâneo, a palavra “força” ganhou um sentido ambíguo. Fala-se em força para designar a capacidade de impor, vencer e silenciar adversários — e não mais de convencer ou governar. Quando essa inversão se instala, a agressividade deixa de ser um desvio a ser repudiado e passa a ser lida como sinal de firmeza. O adversário, antes interlocutor, torna-se alvo.

Esse deslocamento não é apenas retórico. Ele altera a forma como a sociedade interpreta conflitos: o que deveria provocar repúdio passa a gerar admiração, e o que deveria ser exceção começa a ser tratado como regra. A violência, nesse contexto, deixa de ser um método e vira uma mensagem.

Símbolos que formam gerações

A dimensão simbólica do fenômeno talvez seja a mais delicada. Uma criança de nove anos, vestindo a camiseta amarela da seleção brasileira, aparece como imagem que resume o problema: símbolos que pertenciam a todos passam a circular como bandeiras de grupos específicos, e o significado atribuído a eles é absorvido desde cedo, antes que exista repertório para questioná-lo.

Quando identidades coletivas — nacionais, esportivas, culturais — são incorporadas a disputas políticas, o pertencimento passa a ser medido pela adesão, e a diferença passa a ser lida como ameaça. A criança que veste a camisa da seleção, nesse cenário, deixa de estar apenas torcendo: é inserida, ainda sem perceber, em um campo de batalha simbólico que não escolheu.

O custo da naturalização

O principal efeito desse processo é a banalização. À medida que expressões de violência se tornam símbolos reconhecíveis, o espanto desaparece e a sociedade perde a capacidade de reagir. O que ontem era inaceitável hoje é discutido; o que hoje é discutido amanhã pode ser defendido.

Reverter essa lógica exige distinguir, com clareza, força de agressão, identidade de exclusão e vitória de aniquilação. Enquanto a destruição do outro continuar sendo celebrada como conquista, a violência seguirá ocupando o lugar que deveria pertencer ao debate — e símbolos que uniam passarão a dividir.