Um dos setores mais críticos ao governo Lula (PT), o agronegócio reelegeu a maioria dos parlamentares ligados ao campo que disputaram a eleição deste ano, enquanto nomes aliados ao presidente perderam em estados e em posições-chave do setor. A projeção da bancada ruralista é que cerca de 60% dos 81 senadores da próxima legislatura estarão alinhados ao agro.

Criada oficialmente em 2002, a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) reúne hoje 349 congressistas — 302 deputados federais e 47 senadores. O total cresceu no atual governo: em 2023, eram 287 membros.

Avanço no Senado

Segundo o presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), a frente já soma 180 deputados federais eleitos em seus quadros, ponto de partida para a nova legislatura, até a adesão de novos nomes. No Senado, 40 eleitos já têm vínculo com o grupo — número que pode chegar a 50, acima dos 47 atuais.

“Nossa expectativa é ampliar a representatividade, especialmente no Senado, onde podemos chegar à casa dos 50 parlamentares considerando os eleitos com perfis alinhados ao setor. Na Câmara, existe um espaço importante para novas adesões”, afirmou Lupion.

Das 81 cadeiras do Senado, 54 estavam em disputa neste ano e nomes do agro venceram 24, entre eles o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), hoje primeiro vice-presidente da ACNB (Associação dos Criadores de Nelore do Brasil), raça que responde por 80% do gado de corte do país. André do Prado (PL), eleito por São Paulo, e Guilherme Derrite (PP), deputado que já integra o grupo, devem reforçar a bancada. No total, 18 deputados em exercício foram eleitos senadores.

Nem todos os deputados da bancada tentaram a reeleição — o vice-presidente da FPA, Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), é um dos casos —, enquanto outros disputaram o Senado ou governos estaduais. Dos que buscaram novo mandato, 67% foram vitoriosos no último dia 4.

Atritos com o Planalto

A relação com o governo federal foi turbulenta nos últimos anos. Para o setor, não há uma política agrícola previsível e segura para os produtores rurais, e o campo enfrenta juros elevados, crédito caro e restrito, queda nos recursos efetivos de financiamento e um seguro rural insuficiente.

Dados da CNSeg (Confederação Nacional das Seguradoras) mostram que, entre 2021 e o ano passado, a área de lavouras protegida por seguro rural no país caiu 76,6% — de 13,7 milhões de hectares para 3,2 milhões. Cerca de 95% das apólices foram contratadas por pequenos e médios produtores.

Dificuldades climáticas, alta de custos e redução de margens agravaram o endividamento. Em agosto, ruralistas cobravam a renegociação das dívidas, um mês após a edição de uma Medida Provisória sobre o tema. A portaria saiu dias depois, mas gerou nova queixa: abrangia, segundo os congressistas, operações de R$ 25,8 bilhões, abaixo dos R$ 100 bilhões anunciados pelo governo e muito aquém dos R$ 197,2 bilhões da chamada “carteira problemática” do setor — resolveria apenas 13% do problema.

Para Lupion, o Congresso terá papel crucial em políticas que garantam competitividade e condições para o produtor investir e produzir. Ele apontou a falta de previsibilidade e segurança na política agrícola como o principal problema na relação com o governo Lula.

“Tivemos juros elevados, crédito mais caro e restrito, redução dos recursos efetivamente disponíveis para financiamento e um seguro rural que ficou muito aquém das necessidades do setor”, disse o deputado.

Presidente da Faesp (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo), Tirso Meirelles avaliou que o próximo Congresso será mais coeso e poderá planejar o setor a longo prazo. Ele afirmou ter levado ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) críticas sobre a relação do governo com o agro.

“O presidente não poderia tratar o agro dessa forma. Se ele teve as suas preferências, é uma coisa. As preferências mudam”, disse Meirelles.