Ao longo da campanha eleitoral de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL) procurou construir a imagem de um “Bolsonaro moderado” ou “vacinado”, em contraste com o pai, Jair Bolsonaro (PL), preso por liderar a tentativa de golpe que o Brasil enfrentou entre 2022 e o início de 2023. “Ele não quis tomar vacina [contra a Covid]; eu tomei duas doses”, afirmou ao jornal Folha em dezembro de 2025.
Um levantamento das atitudes do parlamentar nos momentos mais delicados do governo do pai, porém, mostra alinhamento com as principais narrativas do ex-presidente — da pandemia de Covid-19, que matou mais de 700 mil pessoas no país, às ações que, segundo o STF (Supremo Tribunal Federal), contribuíram para enfraquecer o processo eleitoral e preparar o terreno dos atos golpistas.
Vídeo de Drauzio Varella
Em 22 de março de 2020, quando o Ministério da Saúde já havia confirmado a transmissão comunitária do novo coronavírus em todo o território nacional, Flávio publicou um vídeo descontextualizado do médico Drauzio Varella. A gravação era de janeiro, quando ainda não havia casos confirmados no Brasil, e o médico afirmava que não havia motivo para mudar a rotina. O conteúdo foi compartilhado meses depois para reforçar a narrativa do governo contra o distanciamento social. A pedido do próprio médico, o YouTube removeu o vídeo do canal do senador.
Campanha “O Brasil Não Pode Parar”
Flávio foi um dos primeiros integrantes do entorno presidencial a divulgar nas redes o vídeo da campanha “O Brasil Não Pode Parar”, que incentivava categorias profissionais a voltar ao trabalho em plena pandemia. Quando o senador publicou o material, em 26 de março de 2020, o país já registrava 77 mortes pela doença. Após críticas, a Secretaria de Comunicação Social do governo federal negou o uso oficial do conteúdo, mas assessores palacianos confirmaram que a mensagem havia sido espalhada para inflar a militância de apoio ao presidente. Em 28 de março, a Justiça Federal proibiu a União de compartilhar materiais da campanha.
Tratamento precoce
Em setembro de 2020, Flávio anunciou no Twitter (atual X) que havia se curado da Covid-19 graças ao uso de hidroxicloroquina e azitromicina, ecoando a defesa do chamado “tratamento precoce” feita pelo pai. À época, já havia evidências relevantes de ineficácia das drogas: a OMS tinha interrompido os estudos com a cloroquina, a agência reguladora americana FDA havia revogado a autorização de uso emergencial e sociedades especializadas, como a Sociedade Brasileira de Imunologia, desaconselhavam o uso dos medicamentos.
Vacinação
Em 19 de janeiro de 2021, um dia após o início da campanha nacional de imunização, Flávio declarou no Twitter que não tomaria a vacina naquele momento por recomendação médica, alegando alta taxa de imunidade por já ter tido a doença. “Vou seguir a ciência”, escreveu. O consenso científico, contudo, indicava que pessoas previamente infectadas deveriam se vacinar após a recuperação. Em março, quando Jair Bolsonaro mudou o discurso e adotou posição pró-vacina em meio ao desgaste político, Flávio o acompanhou e publicou imagem do pai com os dizeres “Nossa arma é a vacina”. Em julho, anunciou ter tomado a primeira dose do imunizante da AstraZeneca.
Eleições e 8 de janeiro
No campo eleitoral, o senador defendeu a adoção do voto impresso, questionou a credibilidade das urnas e minimizou os ataques de 8 de janeiro de 2023, jamais reconhecendo a tentativa de golpe. No Congresso, integrou os trabalhos da CPI da Covid, cujo relatório final foi aprovado em outubro de 2021.