A erupção do Vesúvio, em 79 d.C., que destruiu Pompeia e Herculano, ganhou um novo papel na ciência: tornar-se uma régua histórica para testar e aprimorar técnicas de datação de rochas vulcânicas. Combinando relatos antigos e análises laboratoriais modernas, pesquisadores conseguiram refinar o método argônio-argônio, usado para determinar idades geológicas com mais exatidão.
Uma referência histórica rara
O desastre foi documentado por Plínio, o Jovem, cujas cartas preservaram informações sobre a erupção e sua cronologia. Quase dois milênios depois, esses registros oferecem uma referência histórica excepcional para verificar se instrumentos científicos reproduzem corretamente um evento conhecido.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley e da Universidade de Pádua aproveitaram essa vantagem: como a idade da erupção é bem estabelecida, tornou-se possível comparar as medições de laboratório com um acontecimento documentado.
O que as análises revelaram
A equipe examinou oito amostras de sanidina, mineral rico em potássio encontrado nos depósitos vulcânicos da erupção. As análises indicaram uma idade de 1.938 anos, com margem de incerteza de 13 anos, considerando as medições feitas em 2025. A idade histórica de referência era de aproximadamente 1.946 anos.
Os números principais do estudo resumem o avanço alcançado:
• O Vesúvio entrou em erupção no ano 79 d.C.;
• Oito amostras de sanidina foram analisadas;
• A idade calculada foi de 1.938 ± 13 anos;
• A precisão alcançou aproximadamente 0,7%;
• A exatidão apresentou diferença relativa de apenas 0,4%.
O potássio como relógio natural
O método argônio-argônio baseia-se no decaimento radioativo do potássio-40, presente em certos minerais. Ao longo do tempo, parte desse elemento se transforma em argônio-40. Quando uma rocha vulcânica esfria e seus minerais cristalizam, o argônio produzido depois fica retido em sua estrutura.
No laboratório, as amostras são irradiadas com nêutrons, o que converte parte do potássio-39 em argônio-39. Em seguida, os cientistas medem a proporção entre os isótopos de argônio, o que permite calcular o tempo decorrido desde o fechamento do sistema isotópico, desde que contaminações e alterações posteriores sejam consideradas.
Como o método foi recalibrado
O estudo foi liderado por Paul Renne, do Berkeley Geochronology Center, com participação de William Cassata, Caroline Hasler e pesquisadores internacionais. Publicado em 25 de setembro de 2026 na revista Science Advances, o trabalho combinou espectrometria de massa aprimorada, novas estratégias de irradiação e correções para interferências isotópicas.
Os pesquisadores também revisaram a cronologia do desastre. Embora 24 de agosto de 79 d.C. seja a data tradicionalmente associada às cartas de Plínio, descobertas arqueológicas motivaram propostas de uma erupção no outono. A equipe considerou uma incerteza histórica de cerca de dois meses, suficiente para acomodar esse debate sem comprometer o resultado principal.
Ganhos para a ciência
A pesquisa refinou a constante de decaimento do potássio-40 em argônio-40, resultando em uma meia-vida parcial equivalente de aproximadamente 12,044 bilhões de anos, com incerteza de 0,088 bilhão — precisão cerca de duas vezes maior que a obtida anteriormente por técnicas de contagem de desintegrações. Em comparação, estudos sobre o Vesúvio realizados em 1997 apresentavam incertezas muito maiores.
Com a calibração mais confiável, será possível reconstruir cronologias vulcânicas com maior precisão, avaliar a frequência de erupções e investigar riscos de vulcões próximos a regiões povoadas. A arqueologia também se beneficia, especialmente quando depósitos vulcânicos podem ser relacionados a ocupações humanas ou mudanças ambientais.
O avanço deve melhorar comparações com outros métodos de datação, como urânio-chumbo e carbono-14. Ainda assim, a nova calibração não elimina todas as fontes de incerteza, já que alterações minerais e condições específicas de cada amostra seguem relevantes. A contribuição de Pompeia foi oferecer uma referência histórica independente para aperfeiçoar medições usadas em diferentes períodos da história da Terra.