Músicos de orquestras brasileiras costumam evitar manifestações políticas públicas por temer represálias. Como boa parte desses grupos é mantida pelo poder público, uma bandeira partidária pode custar até o emprego. Não é o caso de Iberê Carvalho, 36, chefe do naipe de violas da Orquestra Sinfônica de Santo André, mantida pela prefeitura da cidade.

Paraibano de João Pessoa radicado em São Paulo, o violista integra a cobertura especial Eleitor, esse Desconhecido, que retrata como a política atravessa o cotidiano de brasileiros de todas as regiões. Nos últimos dias, ele divide a rotina entre o trabalho na orquestra, os preparativos do próximo concerto do coletivo que dirige e a mobilização pela reeleição de Lula (PT), a quem escolheu no primeiro turno.

Instrumentista em ascensão

Iberê se destaca em um instrumento ainda pouco conhecido fora do circuito da música clássica. A viola se assemelha ao violino, mas é um pouco maior e produz um som mais grave.

Formado pela escola de música da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), ele viveu seis anos na Alemanha, onde se especializou na Escola Superior de Artes Performáticas de Frankfurt. Fala alemão, espanhol, francês, inglês e italiano, além do português.

Em Belo Horizonte, ainda estudante, foi abordado por policiais por volta de 23h ao voltar para casa com a viola. Suspeitando que o instrumento fosse roubado, os agentes só o liberaram depois de obrigá-lo a tocar na rua.

Em 2023, ano em que foi contratado pela Sinfônica de Santo André, fundou com amigos o Ubuntu Ensemble, grupo com mais de 40 instrumentistas negros de diferentes cidades do país. O coletivo se reúne sem periodicidade fixa, conforme as oportunidades que surgem. O próximo concerto está marcado para 20 de novembro, na Estação Motiva Cultural, na Sala São Paulo.

Campanha e críticas ao PT

Nas redes e no dia a dia — “na rua, no Uber, no mercado” —, Iberê tenta converter eleitores para Lula no segundo turno. “O primeiro turno me pegou meio desprevenido, não esperava aquele resultado”, afirma, sobre a vantagem de quase dois pontos percentuais de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente. “Tenho visto pessoas que nunca tiveram simpatia pelo Lula aderindo à campanha.”

Autodeclarado “alinhado a um pensamento de esquerda”, ele faz críticas ao atual governo e às gestões anteriores do petista. “A extrema direita gosta de chamar o Lula de comunista, mas é, na verdade, um liberalzão. Nos primeiros governos dele, o Brasil pressionava países como Bolívia e Peru do mesmo jeito como os Estados Unidos pressionam o México”, diz.

Para Iberê, porém, nada se compara ao perigo da ascensão da extrema direita. “Sou um homem preto nordestino, do candomblé, bissexual assumido”, afirma. “A partir do momento em que esse grupo decide perseguir o modo como eu sou, o jeito como eu existo, aí esse tipo de opinião deixa de ser válida.”

Defesa do Bolsa Família

Filho de Tutu Carvalho, coordenadora de uma escola construtivista em João Pessoa e pioneira do movimento negro na Paraíba, e de Nai Gomes, artista e ativista cultural, ele conta que nunca usufruiu do Bolsa Família, mas tem amigos beneficiados. “Pode ser a diferença entre comer e não comer.”

Ao rebater a tese de que o programa ampararia quem não gosta de trabalhar, é enfático: “Já pegou a linha 11 da CPTM, que passa por Guaianases, Poá, Suzano? Está lotada às 5h, 6h, e segue assim até 10h. O Brasil é uma nação de trabalhadores.”