Um em cada cinco eleitores não compareceu ao primeiro turno das eleições de 2026. Foram 32,9 milhões de ausências, patamar semelhante ao registrado em 2022. O número é frequentemente interpretado como indicador do desinteresse da população pelo voto, mas uma análise do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV Cepesp) mostra que parte dessa conta não corresponde a eleitores que simplesmente decidiram ficar em casa.

Os pesquisadores Marco Antonio Faganello e Miguel Lian Leite utilizaram dados eleitorais do TSE (CepespData) para decompor a abstenção em camadas. Como o tribunal ainda não divulgou os números de 2026 por faixa de idade, o recorte usou os dados de 2022.

Facultativos e cadastro envelhecido

A primeira camada reúne quem não é obrigado a votar: jovens de 16 e 17 anos, analfabetos e pessoas com 70 anos ou mais. Em 2022, esse grupo representava 13% do eleitorado, mas respondia por 32% das ausências. Só os maiores de 70 anos somavam 27%.

O envelhecimento do cadastro eleitoral também pesa. Os inscritos com 70 anos ou mais passaram de 9,5% do total em 2022 para 10,9% em 2026. Ou seja, mesmo sem mudança de comportamento, a taxa de abstenção tende a crescer.

Nomes de falecidos no cadastro

A segunda camada é mais delicada: o cadastro contém nomes de eleitores que já morreram. O título é cancelado após três turnos consecutivos de ausência, mas a regra não vale para quem tem voto facultativo. Além disso, um idoso falecido só é retirado do sistema quando o cartório comunica o óbito — quando a comunicação não chega, o nome permanece.

Os números revelam a dimensão do problema. Em 2026, havia 298 mil inscritos com 100 anos ou mais, enquanto o Censo de 2022 registrou apenas 38 mil centenários no país. Entre os que tinham 90 anos ou mais, eram 1,3 milhão de nomes no cadastro contra 814 mil moradores estimados pelo IBGE — pelo menos 528 mil registros a mais. Em 2022, 99% dos inscritos com 100 anos ou mais não compareceram à votação.

Descontadas essas camadas, a abstenção entre os eleitores obrigados a votar ficou em 16,3% em 2022 — um em cada seis, e não um em cada cinco.

A estabilidade do índice entre 2022 e 2026 também tem explicação administrativa: em 2025, a Justiça Eleitoral cancelou cerca de 5 milhões de títulos de quem faltou a três turnos. Se esses eleitores seguissem inscritos e voltassem a faltar, a abstenção de 2026 teria superado 23%.

Desigualdade persiste

Os pesquisadores alertam que o problema não desaparece. Entre os obrigados a votar em 2022, a abstenção foi de 10% entre quem tem diploma universitário e de 19% entre quem não concluiu o ensino fundamental. Comparando municípios do mesmo estado, a ausência é maior onde há mais pretos e pardos.

Para medir melhor a taxa, os autores sugerem ações da Justiça Eleitoral, como garantir a comunicação de óbitos em todos os estados, cruzar o cadastro com as bases federais de mortalidade, revisar os registros de maiores de 90 anos e divulgar separadamente a abstenção de obrigados e facultativos. Assim, seria possível saber com mais precisão quantos eleitores deixam de votar por desinteresse e onde a participação realmente falha.