Quase quatro anos após o fim do governo Jair Bolsonaro (PL), 18 ex-integrantes do gabinete e auxiliares do ex-presidente cumprem pena, respondem a processos na Justiça ou são investigados pela polícia por diversos crimes.

Levantamento mostra que a maioria responde a acusações de crimes ou irregularidades cometidos durante a gestão, entre 2019 e 2022. Os demais casos envolvem Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, com transações mais intensas em 2024 e 2025.

No terceiro governo de Lula (PT), há ministros afastados por suspeita de importunação sexual e corrupção. No total, quatro pessoas que passaram por postos-chave em ministérios, um ex-presidente de autarquia — o do INSS, preso em caso de desvios de aposentadorias — e um presidente de estatal são suspeitos de crimes ainda em investigação no STF, no STJ e na Justiça Federal. Dos seis casos, três dizem respeito a fatos ocorridos durante o governo; a outra metade, a supostos crimes anteriores a 2023.

Condenações pela tentativa de golpe

Pela tentativa de golpe de Estado ao fim do mandato, parte dos integrantes cumpre pena determinada pelo STF, incluindo o próprio ex-presidente, dois ex-ministros da Defesa, um ex-comandante de Força e quatro generais de quatro estrelas.

Uma das plataformas de Flávio Bolsonaro é promover ampla revisão das condenações e aprovar anistia a quem cumpre pena. O senador afirma que, se eleito, subirá a rampa do Palácio do Planalto com o pai na posse presidencial, em 5 de janeiro.

“Nossa expectativa é que o STF examine a matéria à luz do conjunto probatório dos autos, enfrentando os elementos que demonstram a necessidade de se rever a condenação”, disse o advogado Eumar Novacki, que defende o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, que cumpre pena na Papudinha, em Brasília.

Pandemia e madeira

Sobre a pandemia de Covid, tramita em sigilo na Justiça Federal em Brasília uma ação de improbidade administrativa contra o general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde no auge da crise. O juiz abriu prazo para especificação de provas, e a defesa afirmou que não há provas a produzir e que a ação é improcedente.

A ação do MPF, apresentada em meados de 2021, aponta dano de R$ 122 milhões aos cofres públicos, por deixar de adquirir vacinas para imunizar a população em 2020 e optar por medicamentos sem eficácia contra a Covid. “Quem trata da minha defesa é a AGU”, disse Pazuello, reeleito deputado federal pelo Rio. “Essa é uma página que está mais do que na hora de virar.”

Também ligado à pandemia, o senador reeleito Rui Costa (PT-BA), ex-ministro da Casa Civil de Lula, é investigado pela compra de respiradores pelo Consórcio Nordeste, que liderava quando governava a Bahia. O consórcio pagou antecipadamente R$ 48,7 milhões e os equipamentos não foram entregues. Um inquérito no STJ apura o caso, e o consórcio tentou reaver o dinheiro na Justiça. A defesa sustenta que a aquisição ocorreu em contexto de emergência e pede celeridade na investigação.

No campo ambiental, atos oficiais do então presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, flexibilizaram as regras de exportação de madeira, o que levou ao contrabando de 3.000 cargas de toras para o exterior, segundo a PF. Uma operação policial resultou no afastamento de Bim, e o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, passou a ser formalmente investigado por organização criminosa, corrupção passiva, facilitação de contrabando e advocacia administrativa.

A ação penal no STF tem 21 réus, entre eles Salles e Bim, e o procurador-geral da República enviou alegações finais ao Supremo em julho.