Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026 apresentaria desafios relevantes à democracia brasileira. O cenário reúne condições bastante favoráveis à concentração de poder, somadas ao histórico autoritário atribuído à família e ao grupo político do candidato.
Além da ampla maioria conservadora no Congresso Nacional, com forte presença bolsonarista, o senador disporia de instrumentos para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF), seja pela indicação de novos ministros, seja por meio de pedidos de impeachment.
Flávio, senador pelo PL e candidato à Presidência da República com apoio do MDB, é apontado como herdeiro político de Jair Bolsonaro e representa um movimento que atacou de forma reiterada a legitimidade das eleições e as instituições democráticas. Ele poderia não repetir o estilo duro do pai, ex-militar ligado aos porões da ditadura, mas essa diferença não seria suficiente para afastar os riscos.
Agenda já encaminhada
Estaria dada a convergência em torno de uma pauta de flexibilização de direitos trabalhistas, retrocessos ambientais, cortes de benefícios sociais e favorecimento de interesses econômicos poderosos. A questão mais delicada seria saber até que ponto essa aliança aceitaria sacrificar os mecanismos de controle do Executivo em caso de escalada antidemocrática.
O autoritarismo contemporâneo dispensa tanques nas ruas ou o fechamento do Legislativo. Democracias podem ser corroídas por governantes eleitos, por meio de mudanças constitucionais, intimidação de adversários e enfraquecimento insistente das instituições.
Esse caminho tem sido aberto em diversos países pela conveniência de elites tradicionais, em um contexto em que amplos setores sociais enxergam o futuro como incerto e perigoso. O acúmulo de crises — do trabalho, do clima, da tecnologia e da paz — alimentaria medo e desorientação, como se apontasse para o fim dos tempos.
Fatores externos
O quadro se agrava com o ativismo disruptivo do populista autocrático Donald Trump, aliado do bolsonarismo e protagonista de ataques à ordem e às convenções liberais nos Estados Unidos e na política externa. Com Flávio no poder, o avanço da chamada doutrina Donroe, que trata a América Latina como quintal, seria incontível. Soma-se o argentino Javier Milei, versão libertária do perfeito idiota latino-americano, ainda que em rota de fiasco econômico.
Outro episódio recente chamou atenção: a censura determinada pelo ministro Kassio Nunes Marques ao canal lulista de André Janones, a pedido da campanha de Flávio. A decisão virou alvo de disputa, mas levantou a dúvida sobre se os chamados ‘checks and balances’ funcionariam diante de um Executivo decidido a submeter os demais Poderes.
Contrapeso possível
Um contrapeso, de natureza paradoxal, poderia surgir à perspectiva de avalanche ideológica no exercício do governo. O centrão, apesar de identificado com a agenda conservadora, não pretende entregar de bom grado ao PL o comando da Câmara dos Deputados, embora aceite a do Senado. Interesses de ocasião e disputas por influência e recursos tendem a mobilizar a velha tática de criar dificuldades para vender facilidades.
Haveria ainda representação de esquerda e centro-esquerda no Legislativo, sobretudo entre os deputados. Em caso de reeleição de Lula, outros problemas surgiriam, mas o jogo entre os Poderes teria de ser jogado — lembrando que o presidente já enfrentou a bombástica rejeição de uma indicação ao STF.
